A reforma neoliberal desorganizou a classe trabalhadora, esvaziou a política de conteúdos redistributivos e deixou um vácuo simbólico preenchido pela extrema-direita com religiosidade e medo. A esquerda, em muitos casos, concentrou-se em pautas identitárias legítimas, mas perdeu conexão com o conflito de classes material, facilitando a hegemonia cultural conservadora entre as massas
1.
Há uma tendência estrutural decisiva nas democracias ocidentais no século XXI: a substituição da centralidade da disputa socioeconômica, expressa na antiga “luta de classes”, pela guerra cultural, liderada por forças de extrema-direita nacional-populista. Elas mobilizam valores conservadores, ressentimento identitário e religiosidade evangélica como forma de organizar o eleitorado ainda dentro do reducionismo binário do “nós contra eles”.
Essa mudança não é acidental, mas responde a mutações profundas do capitalismo, da estrutura de classes e da crise de representação política. Nas democracias liberais maduras, as políticas econômicas foram progressivamente delegadas a tecnocracias (bancos centrais independentes, regras fiscais, tratados de comércio), reduzindo o espaço de escolha popular.
O espectro político foi reduzido à alternância entre variantes do mesmo neoliberalismo, com partidos social-democratas aceitando o tripé: austeridade, livre mercado e rentismo financeiro. Resultado: a política e a economia perderam sua capacidade de mobilizar afetos e antagonismos, abrindo espaço para outras pautas simbólicas mais polarizantes.
Com os acessos à rede social, houve a ascensão da guerra cultural e identitária como eixo de mobilização. Na pauta da extrema direita, sobressai a defesa da “família tradicional”, combate ao aborto, ao feminismo, à educação sexual.
Adotou um nacionalismo econômico seletivo, fazendo ataque a imigrantes, ONGs e elites globais. Busca a mobilização religiosa contra as “agendas identitárias” como símbolos de decadência moral ou ameaça à soberania.
Seu público-alvo é constituído por ex-operários e classes médias ressentidas com a globalização, desindustrialização e multiculturalismo. Somam-se aos populares com trabalhos precarizados, religiosamente conservadores, seduzidos pela retórica de ordem e moral. Tornam-se evangélicos e protestantes, cuja ética de disciplina, sacrifício e literalismo bíblico se alinha à retórica do “resgate moral da nação”.
Essa instrumentalização religiosa e moral da política reúne grupos religiosos fundamentalistas como blocos de poder político e eleitoral, influenciando legislação, educação e mídia. Políticos oportunistas (Donald Trump, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán, Giorgia Meloni, Javier Milei, etc.) capturam esse imaginário para construir coalizões autoritárias sob o disfarce da “liberdade de expressão” ou da “soberania popular”.
2.
As consequências sistêmicas são observadas em diferentes esferas, cada qual com uma transformação observada. A economia foi reduzida à gestão tecnocrática ou populismo fiscal episódico. Na cultura política, passou a predominar a polarização simbólica em torno de valores morais, étnicos, religiosos.
Na representação política, partidos tradicionais entraram em colapso, com a emergência de outsiders carismáticos. São desqualificados intelectualmente para a atuação democrática e representativa de toda a nação.
Os direitos civis sofreram retrocessos em nome da moral, segurança ou soberania nacional. A própria classe trabalhadora fica dividida entre demandas materiais (salário, emprego) e valores morais.
A reforma neoliberal desorganizou a classe trabalhadora, esvaziou a política de conteúdos redistributivos e deixou um vácuo simbólico preenchido pela extrema-direita com religiosidade e medo. A esquerda, em muitos casos, concentrou-se em pautas identitárias legítimas, mas perdeu conexão com o conflito de classes material, facilitando a hegemonia cultural conservadora entre as massas.
Abaixo apresento um quadro comparativo didático entre as formas de mobilização política predominantes no século XX (industrial/fordista) e no século XXI (pós-industrial/neoliberal). Destaca a substituição progressiva da centralidade da pauta econômica pela guerra cultural e moral como eixo de disputa eleitoral e ideológica.
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Dimensão
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Século XX (Industrial / Fordista)
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Século XXI (Neoliberal / Pós-industrial)
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Eixo principal de disputa política
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Conflito de classe e redistribuição econômica
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Conflito moral-cultural e identidade
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Protagonistas sociais
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Classe trabalhadora industrial vs. burguesia capitalista
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Grupos identitários, religiosos, midiáticos, classes médias desindustrializadas
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Demandas centrais
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Salário, emprego, bem-estar, previdência, reforma agrária
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Costumes, segurança, imigração, moral sexual, “liberdade de expressão”
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Forma de organização política
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Partidos de massa, sindicatos, movimentos operários
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Influencers, igrejas, algoritmos, microcelebridades, redes sociais
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Mobilização afetiva
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Solidariedade de classe, internacionalismo, ideologia material
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Medo, ressentimento, moralismo, nacionalismo, nostalgia
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Instrumentos ideológicos dominantes
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Programas econômicos e projetos de Estado
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Narrativas de identidade, religião, patriotismo e “anti-sistema”
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Papel das religiões
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Secularização crescente, papel periférico
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Centralidade de igrejas evangélicas, moralismo teológico-político
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Modelo de comunicação política
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Jornais, comícios, sindicatos, televisão estatal
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Redes sociais, WhatsApp, microtargeting, desinformação viral
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Exemplos históricos
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New Deal, Estado Social europeu, revoluções socialistas
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Trumpismo, bolsonarismo, orbanismo, identitarismo de direita
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Essa transição expressa o esvaziamento do horizonte utópico da esquerda. Ela parece ter perdido a capacidade de formular projetos de futuro coletivos. O controle tecnocrático da economia despolitizou temas como orçamento, dívida e regulação. O uso do medo e da moral como substitutos da justiça social criou lealdades emocionais não baseadas em interesses materiais como outrora.
[Artigo tirado do sitio web brasileiro aterraéredonda, do 20 de maio de 2025]