A estratégia perdedora de Trump

James Petras -

Dada a continuada economia pujante da China (6,5% do PIB em 2018), a crescente ênfase na expansão dos serviços sociais, no mercado de consumo e na facilidade de crédito, as políticas de tarifas coercivas de Trump estão condenadas e as ameaças militares só encorajarão a China a aumentar e atualizar a sua defesa militar e programas espaciais superiores

 Os EUA adotam um regime destinado ao fracasso e ameaçam a economia mais dinâmica do mundo. O presidente Trump elogia Jair Bolsonaro, o recém-eleito presidente do Brasil, e promete promover estreitamento dos laços económicos, políticos, sociais e culturais. Em contraste, o regime de Trump está empenhado em desmantelar o modelo de crescimento da China, impondo sanções severas e generalizadas, e fomentar a divisão e fragmentação duma China maior.

 Washington escolhe os seus aliados e inimigos com base num acanhado conceito de vantagens a curto prazo e de perdas estratégicas.

 Neste artigo, vamos analisar as razões por que a relação EUA-Brasil se encaixa no objetivo de Washington para o domínio global e porque é que Washington receia o crescimento dinâmico e o desafio de uma China independente e competitiva.

O Brasil à procura de um patrono

 O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, anunciou desde o primeiro dia, um programa de inverter quase um século de crescimento económico orientado pelo estado. Anunciou a privatização de todo o setor público, incluindo setores estratégicos, como as finanças, a banca, os minérios, as infraestruturas, os transportes, a energia e as atividades de manufatura. Além disso, dá prioridade à centralidade das empresas multinacionais estrangeiras. Os anteriores regimes autoritários, civis e militares, protegeram as empresas nacionalizadas que faziam parte de alianças tripartidas que incluíam empresas privadas estrangeiras, estatais e nacionais.

 Em contraste com os anteriores regimes eleitos que tentaram – nem sempre com êxito – aumentar as pensões, os salários e o nível de vida e reconheceram a legislação laboral, o presidente Bolsonaro prometeu despedir milhares de funcionários do setor público, reduzir as pensões e aumentar a idade da reforma, ao mesmo tempo que reduzir os salários, a fim de aumentar os lucros e baixar os custos dos capitalistas.

 O presidente Bolsonaro promete inverter a reforma agrária, expulsar, prender e assaltar as famílias rurais para reinstalar os latifundiários e encorajar os investidores. A desflorestação da Amazónia e a sua entrega aos barões da pecuária e aos especuladores de terras incluirá a ocupação de milhões de hectares de terras indígenas.

 Na política externa, o novo regime brasileiro compromete-se a seguir a política dos EUA em todas as questões estratégicas: o Brasil apoia os ataques económicos à China, apoia a ocupação de terras de Israel no Médio Oriente (incluindo a mudança da capital para Jerusalém), defende os esquemas dos EUA de boicote e políticos para derrubar os governos de Cuba, da Venezuela e da Nicarágua. Pela primeira vez, o Brasil pôs à disposição do Pentágono bases militares e forças militares para quaisquer invasões ou guerras futuras.

 A satisfação dos EUA quanto à cedência gratuita do presidente Bolsonaro de recursos e riquezas e à perda de soberania é apreciada nas páginas do Financial Times, do Washington Post e do New York Times, que preveem um período de crescimento, de investimento e de recuperação – se o regime tiver a "coragem" de impor a venda ao desbarato.

 Como já aconteceu em inúmeras experiências recentes com mudanças de regime para a direita neoliberal na Argentina, no México, na Colômbia e no Equador, jornalistas e especialistas das páginas financeiras deixaram-se cegar pelos dogmas ideológicos quanto a possíveis dificuldades e crises.

 A política económica do regime de Bolsonaro ignora o facto de que o Brasil depende das exportações agrominerais para a China e compete com as exportações dos EUA… as elites da agroindústria brasileira vão ressentir-se da mudança dos seus parceiros comerciais. Vão opor-se, derrotar e corroer a campanha anti-China de Bolsonaro, se ele se atrever a persistir.

 Os investidores estrangeiros vão apoderar-se das empresas públicas, mas tudo indica que não vão expandir a produção, dada a profunda redução do emprego, dos salários, à medida que o mercado dos consumidores vai decaindo.

 Os bancos podem fazer empréstimos, mas exigirão altas taxas de juro para 'riscos' altos, em especial à medida que o governo for enfrentando uma oposição social crescente dos sindicatos e dos movimentos sociais, e uma violência maior da militarização da sociedade.

 Bolsonaro não tem a maioria no Congresso que depende do apoio eleitoral de milhões de funcionários públicos, de trabalhadores assalariados, de pensionistas e de minorias étnicas. Uma aliança no Congresso será difícil sem corrupção e sem compromissos… O gabinete de Bolsonaro inclui vários ministros fundamentais que estão a ser investigados por fraude e lavagem de dinheiro. A sua retórica anticorrupção irá evaporar-se perante as investigações judiciais e as denúncias.

 O Brasil dificilmente poderá fornecer quaisquer forças militares de préstimo para aventuras militares, regionais ou internacionais, dos EUA. Os acordos militares com os EUA terão pouco peso perante o profundo turbilhão interno.

 A política neoliberal de Bolsonaro dependerá das desigualdades, em especial entre os cinquenta milhões que acabaram de sair da pobreza. O apoio dos EUA ao Brasil enriquecerá a Wall Street que vai agarrar no dinheiro e desaparecer, deixando os EUA a enfrentar a ira e a rejeição do seu aliado frustrado.

O confronto dos EUA com a China

 Ao contrário do Brasil, a China não está disposta a sujeitar-se a uma pilhagem económica e a abdicar da sua soberania. A China está a seguir uma estratégia a longo prazo, concentrada no desenvolvimento dos setores mais avançados da economia – incluindo a tecnologia de ponta da eletrónica e das comunicações.

 Os investigadores chineses já produziram mais patentes e artigos científicos de referência do que os EUA. Formam mais engenheiros, mais investigadores de ponta e mais cientistas inovadores do que os EUA, apoiados por altos níveis de financiamento estatal. A China, com uma taxa de investimento de mais de 44% em 2017, ultrapassa em muito os EUA. A China passou de um baixo valor acrescentado para um alto valor, nas exportações, incluindo carros elétricos a preços competitivos. Por exemplo, os iPhones chineses estão a ser mais competitivos do que a Apple, tanto no preço como na qualidade.

 A China abriu a sua economia às empresas multinacionais dos EUA, em troca do acesso à tecnologia avançada, uma coisa que Washington classificou como apreensões "forçadas".

 A China tem promovido acordos multilaterais de comércio e investimento, incluindo mais de sessenta país, em acordos de infraestruturas de grande escala e a longo prazo, por toda a Ásia e África.

 Em vez de seguir o exemplo económico da China, Washington queixa-se de comércio desleal, roubo tecnológico, restrições de mercado e constrangimentos estatais aos investimentos privados.

 A China oferece oportunidades a longo prazo para Washington atualizar o seu desempenho económico e social – se Washington reconhecer que a concorrência chinesa é um incentivo positivo. Em vez de investimentos públicos de grande escala na melhoria e promoção do setor de exportações, Washington virou-se para as ameaças militares, as sanções económicas e as tarifas que protegem os setores industriais de retaguarda dos EUA. Em vez de negociar os mercados com uma China independente, Washington favorece regimes vassalos, como o recém-eleito presidente Jair Bolsonaro do Brasil, que confia no controlo e nas conquistas económicas dos EUA.

 Os EUA têm um caminho fácil para dominar o Brasil em termos de ganhos a curto prazo – lucros, mercados e recursos – mas o modelo brasileiro não é viável nem sustentável. Em contraste, os EUA precisam de negociar, discutir e firmar acordos reciprocamente competitivos com a China. O resultado final da cooperação com a China permitirá aos EUA aprender e crescer de modo sustentável.

Conclusão

 Porque é que os EUA escolheram a via de apoiar um Brasil retrógrado em vez de um líder, um país, virado para o futuro?

 Basicamente, os EUA estão mergulhados estruturalmente num sistema político profundamente militarizado que é movido pela ânsia do domínio mundial – o 'imperialismo'. Os EUA não querem competir com uma China inovadora, procura coagir a China a desmantelar as instituições, a política e as prioridades que engrandecem a China.

 Washington exige que a China abdique da relativa autonomia do estado, aumente a penetração dos EUA nos setores estratégicos e confie nos banqueiros e académicos do mercado livre. A política económica dos EUA é modelada por banqueiros, especulações corruptas e 'lobbyists' de interesses regionais especiais, incluindo regimes como Israel. A política económica da China é modelada por interesses industriais, orientada pelos objetivos estratégicos da autoridade central do estado, capaz e disposto a prender centenas de funcionários de altos cargos, se forem corruptos.

 Os EUA não podem conter a trajetória ascendente da China com um cerco militar – porque a estratégia económica de Pequim neutraliza as bases militares dos EUA e derrota os constrangimentos tarifários através da diversificação de importantes acordos comerciais. Por exemplo, a China está a negociar com a Índia um grande aumento de importações de mercadorias agrícolas, que incluem arroz, açúcar, leite, soja e algodão. A Índia tem atualmente um grande défice comercial com a China, em especial em maquinaria e bens industriais e está ansiosa por substituir os exportadores norte-americanos. A China tem importantes acordos comerciais e de investimento em todo o sudeste asiático, na Coreia do Sul, no Japão, no Paquistão, na Rússia e na Austrália, assim como em África, na América Latina (Brasil e Argentina) e no Médio Oriente (Irão, Iraque e Israel).

 Os EUA têm pouca margem de manobra para "espremer" a China, mesmo em setores de alta tecnologia, à medida que a China é menos dependente do 'know-how' dos EUA. Washington garantiu acordos com a China, aumentando as exportações de carros e de entretenimento. A China pode facilmente concordar em reduzir o alegado "roubo de propriedade", especialmente desde que deixou de ser um fator importante, dado que a maior parte das inovações da China são criadas internamente. Além disso, o big business e a Wall Street exigem que o regime de Trump chegue a um acordo de mercados livres com a China e ignore os seus inimigos autárquicos.

 Dada a continuada economia pujante da China (6,5% do PIB em 2018), a crescente ênfase na expansão dos serviços sociais, no mercado de consumo e na facilidade de crédito, as políticas de tarifas coercivas de Trump estão condenadas e as ameaças militares só encorajarão a China a aumentar e atualizar a sua defesa militar e programas espaciais superiores.

 Quaisquer que sejam os acordos comerciais temporários e limitados que surjam das negociações EUA-China, o regime de Trump continuará a sua agenda imperial unipolar de apoiar regimes vassalos, como o Brasil, e confrontar a China.

 O futuro pertence à China independente, inovadora e competitiva e não a regimes vassalos, militarizados e subservientes como o Brasil.

 

[Artigo tirado do sitio web portugués Resistir.info, do 29 de xaneiro de 2019]

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