A mobilização dos «coletes amarelos», nova etapa das lutas em França

Rémy Herrera -

Os «coletes amarelos», à sua maneira, estão decididos a ocupar o enorme vazio deixado desde há décadas pela esquerda institucionalizada, de defender os interesses de classe de todos os trabalhadores e o internacionalismo em relação a todos os povos do mundo

 O movimento dos «coletes amarelos» em França vai na segunda jornada de mobilização nacional, e convocou já outra para o próximo sábado. Os grandes media fazem o seu papel. Procuram caracterizá-lo por actos de violência, ocultando que na sua maioria surgem por iniciativa da repressão policial. E sobretudo ocultam que se trata de uma enorme expressão de descontentamento popular, reivindicando directamente a demissão de Macron.

 É uma mobilização de massas profundamente nova que surgiu nas últimas semanas em França: a dos «Coletes Amarelos» - nome e cor da casula de alta visibilidade (é suposto que todos os automobilistas tenham uma na sua viatura, por uma questão de segurança em caso de necessidade) que centenas de milhares de franceses envergam, como sinal de ligação comum, manifestando a sua desaprovação face à actuação do Presidente Emmanuel Macron.

 Uma mobilização nova pela sua origem, a sua amplitude e as suas formas de rebelião popular. Tudo começou em pequena escala no final do mês de Outubro através de uma simples petição cidadã, sem etiqueta partidária ou sindical, sem dirigentes nem organizações, difundida nas redes sociais. Reclamava a anulação do aumento da taxa sobre os combustíveis recentemente decidida pelo governo. Alguns dias depois perto de um milhão de pessoas tinham-na subscrito, e começavam a surgir palavras de ordem apelando ao «bloqueio do país.» O movimento de protesto, que inicialmente dizia respeito aos preços da gasolina e ao peso dos impostos, alargou-se muito rapidamente à «carestia de vida», ao «fraco poder de compra», ao «boicote às grandes superfícies», para finalmente se concentrar numa clara palavra de ordem: «Macron, demissão!». O ponto comum a estas contestações, concentrando todas as direcções de reivindicação, era exprimir um mal-estar generalizado, um «saco cheio» da população, uma rejeição das desigualdades sociais causadas pela aplicação do projecto neoliberal.

 O paroxismo viria a ser alcançado no sábado 17 de Novembro: cerca de 280.000 «coletes amarelos» (segundo dados da polícia) espalhados em cerca 2.000 concentrações no conjunto do território francês, bloqueavam o acesso a eixos viários nevrálgicos, portagens de auto-estrada ou supermercados. Na sua maioria inexperientes, saídos à rua espontaneamente, frequentemente sendo participantes em acções de rua pela primeira vez – menos de 10% das manifestações tendo aliás sido declaradas na prefeitura. Em muitas vilas de zonas rurais tratava-se mesmo da primeira vez que tinha lugar uma manifestação. O balanço da jornada saldou-se em um morto (uma infeliz mulher «colete amarelo» atropelada por uma condutora que perdera o controlo da viatura), perto de 500 feridos, dos quais uma dezena com gravidade (e 93 polícias), mais de 280 interpelações por «acções violentas» (na sua maioria automobilistas que forçaram barragens de estrada) …

 Em Paris, numa balbúrdia indescritível – e incontrolável pelas forças da ordem -, uma multidão de várias dezenas de milhares de «coletes amarelos», extremamente heterogénea e absolutamente inclassificável, reunindo jovens adultos (por vezes com os seus filhos), reformados (incluindo avós indignadas com a baixa das suas pensões), empregados de escritório, operários, artesãos, motoqueiros, ferroviários, motoristas de táxi, funcionários, auxiliares de cuidados de saúde, estudantes liceais, até mesmo jovens empresários, mulheres veladas, jovens citadinos, rastas, gente de todas as cores e religiões, de todas as camadas populares, desfilavam numa desordem incrível pelos Champs-Élysées cantando a Marselhesa, «Paris, de pé, levanta-te» e naturalmente…«Macron, demissão!».

 Múltiplos pequenos grupos de «coletes amarelos», improvisados, chegando de todo o lado, muito móveis, conseguiam abrir passagem e contornar – sem violência – as linhas de polícias e gendarmes, completamente ultrapassadas. Eram improvisadas barricadas em diversos lugares da capital, feitas com barreiras de segurança, paletes em madeira, bicicletas, com tudo o que estivesse à mão. Caixotes do lixo eram incendiados. As lojas de luxo dos quarteirões chiques preferiram fechar as portas – embora nenhuma montra tenha sido quebrada nem tenha sido registado qualquer roubo. Aqui lia-se um “tag”: «Às armas!» (palavras do hino nacional); ali via-se a bandeirola: «Nem Macron nem fachos, Black Blocage Total» (sendo Total a multinacional petroleira francesa que, ao que parece, não teria pago o que deve ao fisco), numa outra uma guilhotina desenhada, sem comentário; noutro lugar ouvia-se: «É como em Maio de 68», «Cólera», «É a guerra», ou ainda «Macron para a fogueira!». Apesar dos cordões da polícia de choque, vários milhares de manifestantes, pacíficos mas decididos a fazer-se ouvir, conseguiam aceder à rua que conduz ao Eliseu, antes de serem afastados pelos escudos, as matracas e o gás lacrimogéneo das forças da ordem, e acabaram por dispersar calmamente. Toda a gente ficava aturdida – incluindo «coletes amarelos» e polícias. Nunca se vira nada assim…

 No dia seguinte os protestos prosseguiam em toda a França, e no dia depois desse, segunda-feira 19 de Novembro, estavam bloqueados os acessos a uma vintena de refinarias de petróleo. No dia 20, em Paris, linhas de caminho-de-ferro da gare do Norte foram invadidas e os trajectos em direcção do aeroporto Roissy Charles-de-Gaulle foram atrasados por marchas lentas. Em quase todas as regiões de França, continuavam igualmente a ser efectuadas numerosas acções de bloqueio: em Toulouse, à volta de Lyon, em Bordeaux, em Île-de-France, na Vaucluse, na Normandia, na Bretanha, no Norte, na Córsega, e até nos Departamentos de Além-Mar … Na ilha de Reunião (a mais de 9.300 km de Paris), onde as desigualdades sociais são gritantes, as manifestações transformaram-se em motim. Foi chamado em reforço o exército, e foi instaurado o recolher obrigatório nas comunas mais buliçosas. Os «coletes amarelos» preveniram já nas redes sociais: próximo encontro no sábado 24 de Novembro.

 Actor incomparável, sorriso ao canto da boca e cheio de desprezo, o Presidente Macron faz de conta que ignora este levantamento de massas, tão inédito quanto heteróclito, mas motivado e determinado a prosseguir a luta. Conseguirá continuar a fazê-lo por muito tempo, quando as sondagens revelam que entre 75% e 85% dos franceses dizem apoiar os «coletes amarelos»? De momento, o Presidente contentou-se com prevenir que se mostrará «intratável» face ao «caos»…na ilha de Reunião. Habitualmente tão seguro de si, o Primeiro-Ministro Édouard Philippe surgiu na defensiva, afirmando que «o governo não mudará de rumo» e «não tolerará a anarquia». Por seu lado o Ministro do Interior, Christophe Castaner, exagera na firmeza. Chamado em socorro, o Ministro da Ecologia e da Energia, François de Rugy declara, sem se rir, que a taxa sobre os combustíveis deveria servir para financiar a «transição ecológica» - em quantos cêntimos de euro, uma vez que a França não tem política ambiental? A inquietação do poder é palpável.

 É evidente que a direita e a extrema-direita tentam «recuperar» a mobilização dos «coletes amarelos», desprovida de líderes visíveis. Tal como o é a insistência insidiosa dos grandes media, tentando desacreditar o movimento e lançar gasolina sobre o fogo, em referir (raríssimas) afirmações xenófobas e homofóbicas surgidas nestas acções pela voz de alguns manifestantes (de resto detidas de imediato pelos seus próprios amigos no local). No quadro do capitalismo selvagem e de uma ideologia dominante que atiça ódios e volta uns contra outros tentando salvar as elites, o povo que resiste e sofre é também, infelizmente, feito dessas contradições; mas é precisamente o papel que cabe aos progressistas militantes e esclarecidos o de estarem ao seu lado nas lutas para mostrar aos que se tresmalham o caminho da solidariedade e da fraternidade. Queriam que o rosto dos explorados fosse sempre sorridente? Quereriam ainda por cima que sejam fotogénicos os pobres que se batem pela sobrevivência e a dignidade?

 Muito mais preocupante é o facto de as direcções dos partidos e dos sindicatos de esquerda se terem – até ao momento ainda, e muito amplamente – mantido à distância desta rebelião popular. Não compreendem elas que, com a revolta dos «coletes amarelos», se abre a segunda etapa das lutas do povo francês contra a tirania neoliberal e pela justiça social? Não se apercebem de que se trata da continuação, sob uma forma inovadora, combativa, viva, e a uma escala extraordinariamente ampliada, do mesmo processo de generalização das mobilizações que lançaram em greves e manifestações milhares de camaradas sindicalizados na última primavera? Não vêm elas que os «coletes amarelos», à sua maneira (mas não sem coragem, nem risco e perigo) estão decididos a ocupar o enorme vazio deixado desde há décadas pela esquerda institucionalizada, de defender os interesses de classe de todos os trabalhadores e o internacionalismo em relação a todos os povos do mundo? Não sabem que é a luta de classes que faz a história?

 Felizmente, as coisas podem mudar. E aquilo que parece esquecido nas altas esferas, as bases se encarregarão de lhes recordar. Na terça-feira 20 de Novembro um primeiro sindicato de transportes anunciava o seu apoio aos «coletes amarelos». No dia 21 à noite, os trabalhadores do gás e os electricistas reatavam a luta (se é que a tinham verdadeiramente suspendido desde Junho) e intensificavam-na: diversas refinarias e depósitos de petróleo (em Gonfreville-L’Orcher e Oudalle na proximidade do Havre, Feyzin na periferia lionesa, La Mède próximo de Marselha, mas também em outros locais, nomeadamente os que reabastecem os aeroportos de Blagnac [Toulouse] e Saint Exupéry [Lyon]…) declaravam-se em greve. Na mesma altura ficava a saber-se que o «cavalheiro de indústria» Carlos Ghosn, PDG do grupo automóvel francês Renault e Presidente do Conselho de Administração da Nissan, fora detido e ouvido pela justiça japonesa por suspeita de fraude fiscal e desvio de fundos da empresa para fins pessoais. Será assim tão complicado de compreender a revolta de um povo contra esse mundo?

 

[Artigo tirado do sitio web portugués ODiario.info, do 26 de novembro de 2018]

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