A preparação da guerra contra o Irão

António Abreu -

Em Abril os EUA classificaram o Corpo da Guarda Revolucionária como organização terrorista e retiraram aos parceiros comerciais do Irão o direito a comprarem o seu petróleo, reinstalando sanções por essa compra

  A sabotagem, por ninguém reclamada, de petroleiros de diferentes bandeiras, no Golfo de Omã, nestas últimas semanas, desencadeou um pico de suspeições em relação a Teerão. Até agora ninguém reclamou as acções nem os próprios EUA. A operação teve claramente o objectivo de dar mais «substância» à parola mobilização militar por abate de um drone norte-americano que espiava o Irão. Mais recentemente a banca internacional deu conta da possibilidade de problemas no Golfo de Omã poderem levar a subidas de até mil dólares por barril de petróleo, e à falência da economia mundial. Das ameaças imperiais de leão, os EUA tiveram uma saída de sendeiro, ou em linguagem corrente passaram a «bater a bola mais baixo».

Para trás

 Para trás ficara a nomeação de John Bolton como Conselheiro Nacional de Segurança, após a qual os EUA anunciaram, em 2018, a saída do Plano de Acção Integral Conjunto (JCPOA, de Joint Comprehensive Plan of Action) assinado em 2015 pelo Irão, pelos membros do Conselho de Segurança da ONU, pela Alemanha e pela União Europeia (UE). O plano, segundo o qual o Irão se compromete a limitar a sua produção nuclear em troca do levantamento das sanções económicas, estabelece que as reservas de urânio enriquecido iranianas não podem ultrapassar os 300 quilos.

 Em Abril os EUA classificaram o Corpo da Guarda Revolucionária como organização terrorista e retiraram aos parceiros comerciais do Irão o direito a comprarem o seu petróleo, reinstalando sanções por essa compra. Duas semanas depois Bolton fez deslocar para região um conjunto de porta-aviões e bombardeiros referindo-se-lhe como «mensagem clara e inequívoca ao regime iraniano de que qualquer ataque aos interesses dos Estados Unidos ou àqueles dos nossos aliados serão recebidos com força implacável». Donald Trump autorizou no dia 20 um ataque contra Teerão como resposta ao abate de um drone não-tripulado. No entanto acabou por cancelar a operação numa altura em que os aviões e navios estavam a ser mobilizados e não ainda em marcha, como precisou o próprio em conferência de imprensa.

 O objectivo desta manobra é, pela via do bloqueio e das sanções, atingir fortemente a economia do Irão, ao não lhe permitir realizar a sua principal fonte de receitas.

Irão pressiona parceiros

 Mas o Irão pressionou há dias os «parceiros ocidentais» quando a sua agência atómica anunciou, no passado dia 17, que o país estava a dez dias de superar o limite de 300 kg de urânio enriquecido acumulado, imposto pelo acordo nuclear de 2015. Behrouz Kamalvandi, porta-voz da Organização de Energia Atómica do Irão, revelou que esse limite seria superado em 27 de Junho e que a quantidade de urânio enriquecido iria aumentar «drasticamente» a partir de 7 de Julho, «de acordo com as necessidades do país», na sequência do abandono do acordo e da reposição de sanções por parte dos EUA.

 Teerão prometeu acelerar o enriquecimento de urânio e disse que havia tempo de salvar o compromisso «se os países europeus agirem» nesse sentido. O investigador do think tank Brookings Doha Center, Ali Fathollah Nejad, considera o anúncio «simbólico» e ter como objectivo ampliar a pressão sobre a Europa: «pretende obter vantagens negociais e pôr ainda mais pressão sobre a Europa. É mais simbólico que substancial, uma vez que o Irão não vai cometer nenhuma violação. Vai aproximar-se o mais possível do limite, mas não o vai ultrapassar, porque não quer perder o apoio europeu».

 A 1 de Julho o Irão informou terem os seus stocks ultrapassado os 300 quilos de urânio enriquecido, limite designado no tratado JPOA. A informação foi confirmada pela Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA, de International Atomic Energy Agency), a quem o Irão tem permitido aceder sem dificuldades às suas instalações nucleares.

 Dois dias depois, Mohammad Zarif, ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, deplorou o contínuo fracasso da UE no cumprimento das suas obrigações sob aquele tratado, declarando que Teerão «cumprirá os seus compromissos da mesma forma que a UE».

 

«Declaramos explicitamente que, se a Europa estiver comprometida com o Plano de Acção Integral Conjunto (JCPOA), também estaremos comprometidos», afirmou Zarif, em conferência de imprensa em Teerão. «Cumprimos os nossos compromissos, tal como a Europa tem feito», numa óbvia alusão ao atraso da UE em levar à prática o Instrumento de Apoio ao Comércio de Trocas (INSTEX), um mecanismo financeiro que permitirá ao Irão e à UE contornar as sanções económicas dos EUA a este país e prosseguir desenvolver relações bilaterais normais entre o Irão e os seus parceiros comerciais.

A Alemanha entre o Irão e os EUA

 Angela Merkel, chefe da economia mais forte da Europa, disse que havia fortes evidências de que o Irão atacou os dois navios-tanques no Golfo de Omã. Dez dias antes, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, tinha viajado para Teerão, oficialmente para «salvar» o Acordo Nuclear (JCPOA) mas na realidade para negociar com Teerão maneiras de a Alemanha, e por associação outros membros da UE, continuarem a fazer negócios com o Irão em troca de algumas «concessões» por parte deste, a fim de apaziguar Washington.

 O presidente do Irão, Rouhani, reagiu rapidamente. Maas foi dispensado. E com razão. Maas não representava realmente a Alemanha, mas os Estados Unidos. O Irão deu à UE um «ultimato» de 60 dias para cumprir os seus compromissos de negociar com o Irão, nos termos do Acordo Nuclear – apesar dos Estados Unidos o renegarem –, ou então o Irão poderia vir a ignorar algumas das condições do referido acordo. A UE não foi indiferente e os seus membros ensaiaram algum distanciamento em relação aos EUA: «pedimos aos países que não são parte do JCPOA que se abstenham de tomar quaisquer acções que impeçam a capacidade das partes remanescentes de cumprir plenamente os seus compromissos». Mas não ousaram chamar pelo seu nome o país a que a declaração era destinada – os EUA.

 A posição da Alemanha é tanto mais absurda quanto foi Merkel e todo o Bundestag que aceitaram as sanções impostas por Washington à Rússia em 2014 – e as replicaram junto com o resto da UE – mesmo em seu próprio prejuízo e em prejuízo de todo o território da UE.

 A chanceler Merkel – e aparentemente todo o Bundestag, mais uma vez – concordam com a igualmente absurda e falsa acusação de Washington de que o Irão atacou os dois petroleiros, um japonês e o outro norueguês. Este último pertence a um amigo íntimo do Irão, e o japonês foi atingido exactamente na altura em que o primeiro-ministro japonês, Shinzō Abe, visitava o ayatolah em Teerão para discutir como manter o acordo nuclear apesar das sanções e ameaças de Washington, portanto, uma visita amistosa. Uma pessoa cega pode ver que estas eram duas mal disfarçadas operações de falsa bandeira, com «provas em vídeo» fabricadas de maneira muito primária, que mesmo de acordo com a CIA e os militares dos EUA não representaram provas conclusivas.

 Madame Merkel devia ter feito a pergunta óbvia «cui bono?» (quem beneficia desses actos?). Certamente não o Irão mas o agressor, que vem planeando e preparando a guerra com o Irão há décadas, desde a primeira guerra do Iraque com Bush, em 1991. Na invasão do Iraque em 2003 Bolton expressou abertamente os seus sonhos de demolir Irão. Ele e Pompeo são mentirosos e criminosos de guerra, que comandam a Casa Branca e fingem administrar o Pentágono – e que agem impunes. O seu poder parece ilimitado. Trump parece ser um mero fantoche nas suas mãos. Conseguir que Merkel embarque na flagrante mentira dos EUA de que o Irão estava atacando dois petroleiros no Golfo de Omã é um golpe estratégico, aumentando a credibilidade das mentiras e, assim, tornando o ataque dos EUA ao Irão mais aceitável para o resto do mundo.

 No entanto, aparentemente isso não foi suficiente. O Pentágono enviou um avião não tripulado Global Hawk para o espaço aéreo iraniano, uma provocação a que o Irão não resistiu, tendo-o derrubado não sem antes enviar sinais de alerta sobre os quais ninguém fala. O mundo não deveria saber que o Irão tinha tido a noblesse para avisar os EUA sobre o zangão estar em seu espaço aéreo. Como seria de esperar, os gnomos da Casa Branca negam que o drone estivesse invadindo o espaço aéreo iraniano e fingem que estava em espaço aéreo internacional quando foi derrubado. Isso levantou a aposta para Washington lançar um ataque ao Irão. Tudo foi planeado para ser realizado de quinta a sexta-feira (20 a 21 de Junho), e no último minuto Trump parou. É verdade? Pode ser, porque alguém um pouco «mais alto» do que Trump e seus lacaios guerreiros deve ter percebido o perigo que tal ataque pode representar para o resto do mundo ou, na verdade, que isso poderia desencadear um conflito nuclear. No entanto, o plano de ataque ter sido interrompido não significa que tenha sido cancelado.

 Talvez tenha sido apenas adiado. Entretanto, a Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) ordenou que todas as companhias aéreas dos EUA evitassem o Golfo de Omã e o Golfo de Ormuz. E, como era de se esperar, as companhias aéreas dos «verdadeiros» aliados fantoches de Washington seguiram a instrução, como a australiana Qantas Airways Ltd, a Singapore Airlines Ltd, a alemã Lufthansa, a British Airways, a Air France e sua afiliada holandesa KLM, bem como a Malaysia Airlines, que disseram estar a reencaminhar os seus voos para evitar a área. Outras podem seguir-se-lhes, sob pressão directa ou tácita dos EUA.

 Outros parceiros do Irão não parecem importar-se com isso. A visita do primeiro-ministro japonês Shinzō Abe ao Irão foi interrompida recentemente por um «ataque» a um petroleiro japonês no Golfo de Omã, pelo qual Washington tentou responsabilizar Teerão, mas o próprio armador japonês descredibilizou a informação e as relações entre Tóquio e Teerão seguem normais. Também a Rússia continua a aumentar a cooperação com o Irão. Rússia e Irão pretendem aumentar o seu comércio bilateral de commodities.

Guerra estende-se ao ciberespaço

 Entretanto os serviços especiais iranianos descobriram uma vasta rede de espionagem electrónica dos EUA, anunciou o Secretário do Supremo Conselho Nacional de Segurança. De acordo com o dirigente iraniano, Teerão compartilhou essa informação com os seus aliados no contexto da cooperação de segurança.

 Ali Shahmani afirmou que: «quando as acções no ciberespaço são destinadas a prejudicar o seu país, os EUA consideram-nas como acções militares. No entanto, têm outra atitude num cenário em que actuem no ciberespaço contra outros países. Um vírus de computador foi usado contra uma instalação nuclear iraniana. Evidentemente, que o detectamos e neutralizamos a tempo».

Efeitos de uma guerra no comércio internacional de petróleo

 Segundo o jornalista Pepe Escobar, a guerra económica aproxima-se. Mais cedo ou mais tarde, a «pressão máxima» dos EUA sobre o Irão inevitavelmente seria atingida pela «contrapressão máxima». Nos últimos dias, os serviços em toda a Eurásia estavam estimulando Teerão a considerar um cenário bastante simples. Não haveria necessidade de fechar o Estreito de Ormuz se o comandante da Força Quds, general Qasem Soleimani – a última bête noire do Pentágono – explicasse em detalhes, à imprensa internacional, que Washington pura e simplesmente não tem capacidade militar para manter o Estreito aberto. O encerramento do Estreito de Ormuz destruiria a economia americana ao detonar o mercado de derivativos de quadriliões de dólares e isso faria colapsar o sistema bancário mundial, esmagando o PIB mundial de 80 biliões de biliões e causando uma depressão sem precedentes.

 Se o Irão puder de facto fechar o Estreito de Ormuz e se o país for impedido de exportar dois milhões de barris de petróleo essenciais por dia, principalmente para a Ásia, as exportações, que antes das sanções ilegais dos EUA e do bloqueio de fato normalmente chegariam a 2,5 milhões de barris por dia, poderiam cair para apenas 400 mil.

 A intervenção de Soleimani está alinhada com sinais consistentes já vindos das Forças Armadas. O Golfo Pérsico está a ser descrito como uma iminente «galeria de tiro ao alvo». O general de brigada Hossein Salami sublinhou que os mísseis balísticos do Irão são capazes de atingir «transportadores no mar» com tiro preciso. Toda a fronteira norte do Golfo Pérsico, em território iraniano, está alinhada com mísseis anti-navio.

O Irão pode impedir a exportação de petróleo do Golfo Pérsico

 Segundo Pepe Escobar, o presidente do Estado-Maior das Forças Armadas Iranianas, major-general Mohammad Baqeri, foi directo a esta questão: «se a República Islâmica do Irão estivesse determinada a impedir a exportação de petróleo do Golfo Pérsico, essa determinação seria concretizada na íntegra e anunciada publicamente, tendo em vista o poder do país e de suas Forças Armadas».

 Teerão não aceitará uma guerra económica total, que a impeça de exportar o petróleo que protege a sua sobrevivência económica.

A questão é o Estreito de Ormuz ficar bloqueado

 Pode ser uma operação de bandeira falsa. Ou pode ser porque o governo iraniano acha que vai ser atacado e depois afunda um navio de carga ou dois. O que importa é o resultado final; qualquer bloqueio do fluxo de energia levaria o preço do petróleo a atingir os 200 ou 500 dólares por barril, ou mesmo, segundo algumas projecções da Goldman Sachs, 1000 dólares.

 Outra fonte bancária dos EUA explica: «a chave na análise é o que é chamado de nocional1. Eles estão tão longe do dinheiro que dizem que não significam nada. Mas em uma crise, o imaginário pode se tornar real. Por exemplo, se eu comprar uma chamada para um milhão de barris de petróleo a 300 dólares o barril, meu custo não será muito grande, pois é considerado inconcebível que o preço seja tão alto. Isso é nocional. Mas se o estreito estiver fechado, isso pode levar a níveis muito elevados».

 O BIS somente se comprometerá, oficialmente, a indicar o valor total nocional em aberto para contratos em marcadores de derivativos, o qual é estimado em 542,4 biliões de biliões de dólares. Mas isso é apenas uma estimativa.

 A fonte bancária acrescenta: «mesmo aqui é o nocional que tem significado. Enormes quantias são derivadas de taxa de juros. A maioria é imaginária, mas se o petróleo chegar a mil dólares por barril, isso afectará as taxas de juros se 45% do PIB mundial for petróleo. Isso é o que é chamado nos negócios um “passivo contingente”».

 A Goldman Sachs projectou um possível preço por barril, há algumas semanas, após o encerramento do Estreito de Ormuz. Este número, vezes 100 milhões de barris de petróleo produzidos por dia, nos leva a 45% do PIB global de 80 biliões de biliões de dólares. É evidente que a economia mundial entraria em colapso com base apenas nisso.

 Cerca de 30% do comércio mundial de petróleo transita pelo Golfo Pérsico e pelo Estreito de Ormuz. Comerciantes astutos do Golfo Pérsico estão entre os que sabem melhor que ninguém, e são praticamente unânimes nessa percepção, de que se Teerão fosse realmente responsável pelo incidente do petroleiro do Golfo de Omã os preços do petróleo estariam muito elevados. E não estão.

 As águas territoriais iranianas no Estreito de Ormuz totalizam 12 milhas náuticas (22 km). Desde 1959, o Irão reconhece apenas o trânsito naval não militar.

 Desde 1972, as águas territoriais de Omã no Estreito de Ormuz também chegam a 12 milhas náuticas. Em seu estreito, a largura do estreito é de 21 milhas náuticas (39 km). Isso significa, crucialmente, que metade do Estreito de Ormuz está em águas territoriais iranianas e a outra metade em Omã. Não há «águas internacionais».

 A questão do fecho do Estreito parece confirmar-se como essencial.

 

[Artigo tirado do sitio web portugués Abril Abril, do 3 de xullo de 2019]

 

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