A transição energético-climática

Demétrio Alves -

Depois de um período de dúvida e hesitação, os grandes empórios financeiros, industriais e mediáticos estão quase totalmente convertidos às lucrativas fórmulas da transição. E isso deveria determinar uma reflexão crítica naqueles que acreditam que tais políticas de transição, são ecológicas e favoráveis a uma «economia verde» que, por sua vez, seria uma alternativa às formas exploradoras da economia neoliberal

 Em 16 de janeiro de 2019 o secretário-geral da ONU instou os Estados-membro a travarem a fundo as alterações climáticas. Fê-lo num briefing especialmente convocado pela presidente da assembleia geral, Maria Fernanda Espinosa.

 As Nações Unidas, na sua 73ª sessão de setembro/outubro de 2018, tinham-se reunido sob um lema muito mais amplo: «Tornar a ONU relevante para todas as pessoas com liderança global e responsabilidades compartilhadas por sociedades pacíficas, equitativas e sustentáveis». Contudo, António Guterres, na sessão informativa de janeiro, entendeu atribuir grande prioridade às alterações climáticas, depois da diplomacia da paz, e antes dos objectivos de desenvolvimento sustentável, do conhecimento e aplicação de novas tecnologias, e dos próprios valores globais defendidos pela ONU.

 Foi, aliás, realizada no âmbito da ONU uma consulta global a cerca de um milhão de pessoas em todo o mundo com a finalidade de determinar as urgências e respectivas prioridades de ação consideradas mais importantes pela Humanidade. O resultado desse inquérito apontou o seguinte alinhamento: Combater a pobreza e a fome; Saúde e bem-estar; Educação; Igualdade de género; Água e saneamento básico; Energia barata (acessível) e limpa; Emprego e crescimento económico; Indústria, inovação e infraestruturas; Redução das desigualdades; Cidades sustentáveis; Produção e consumo responsáveis; Ação Climática; Vida na água e na terra; Paz, justiça e instituições fortes e, finalmente, cooperação para atingir objectivos.

 Ou seja, o combate às alterações climáticas surge apenas em 13º lugar.

 A informação do secretário-geral introduziu uma significativa distorção quanto ao ordenamento de prioridades de ação.

 Mais tarde, em junho de 2019, a capa da Time revelava ao mundo um Guterres na praia, de fato e gravata, com água acima dos joelhos.

 Tratava-se de uma viagem ao Pacífico Sul, e, na ocasião, a Tuvalu. O objetivo foi alertar para a urgência do combate drástico às alterações climáticas antropogénicas que, segundo a mensagem selecionada, determinariam a submersão daquele arquipélago e de outras localizações no planeta que, acrescentava-se, ocorreriam muito em breve se nada se fizesse.

 As alterações climáticas existem, não apenas aquelas que desde há milhares de anos se têm feito sentir na Terra, e que se mantêm ocorrendo na fita temporal, mas, também, as derivadas das diversas actividades humanas, em particular as que têm relevância social e económica.

 Observe-se, porém, o envolvimento concreto da ONU neste caso, em total sintonia com o alarme superlativo ecoado na media transnacional nos últimos anos.

 Guterres terá estragado um bonito fato1 sem motivo, já que a ciência não comprova o teor do seu discurso alarmista.

 É que, apesar do aquecimento global e da subida do nível das águas, as mais de cem ilhas recife de Tuvalu não ficarão submersas no século XXI.

 Sugere-se uma leitura atenta e honesta de um artigo revisto e publicado na Nature de 9 de fevereiro de 20182, no qual se verificará que Tuvalu viu a sua área total de terra aumentar em 2,9% como resultado de um complexo processo relacionado com os produtos do desgaste das formações de coral, processo em que os sedimentos da erosão conduzem a um ganho líquido de área de terra naquele minúsculo país. Contudo, a CNN, a Time e o The New York Times, e muitos dos ecos subordinados, não tiveram escrúpulo em contribuir para amedrontar as populações.

 Uma outra área que estaria em risco crítico, segundo a comunicação social internacional, seria o sul do Vietname. Neste caso, foram difundidas notícias aterradoras sobre a ocorrência de marés altas que provocariam a inundação completa do território onde vivem mais de 20 milhões de habitantes. E, a partir deste tipo de sensacionalismo, partia-se numa voraz extrapolação planetária.

 Mas, também neste caso, os canais de comunicação determinantes da opinião pública mundial esqueceram-se, muito convenientemente, de revelar a situação real experimentada desde há dezenas de gerações naquela parte do globo. Se o tivessem feito mostrar-se-ia que a área de terrenos inundáveis no presente é quase idêntica à que é apontada para 2050. Ou seja, o território crítico potencialmente acrescentado em 2050 àquele que já é inundável desde há muitas décadas, será… quase nenhum. Todas as pessoas medianamente informadas sabem que os habitantes do delta do Mekong vivem literalmente dentro de água. Existe, de facto, fruto de esforço humano de adaptação às condições naturais e climáticas, por exemplo na província de Giang, um engenhoso e complexo sistema de diques. Tal como, aliás, em boa parte da Holanda e em outros países que, por isso mesmo são chamados «baixos»: grandes extensões do território foram acrescentadas à Natureza pelo Homem, incluindo o aeroporto de Schiphol, um dos maiores do mundo. E, também em Londres, cerca de um milhão de pessoas vivem desde há séculos abaixo do nível do mar e não consta que Shakespeare usasse escafandro quando ia ao The Globe3.

 Muitos outros exemplos da manipulação de acontecimentos e difusão deliberada do medo perante as consequências das alterações climáticas se poderiam exemplificar: desde as «verdades» acerca do desaparecimento dos ursos polares, devido ao degelo, ao voluntarismo energético europeu capitaneado por uma ex-ministra alemã desejosa de servir uma agenda teutónica e imperialista.

Uma política mais interessada na extração de lucro do que no ambiente

 As alterações climáticas antropogénicas existem, tal como outras, devidas a factores naturais planetários endógenos e exógenos, estes devidos à interação da Terra com o sistema solar. Conhecem-se, com abundância de provas históricas, arqueológicas e naturais, as grandes variações que o clima sofreu no período entre os séculos X e XVI, tanto as que tiveram expressão em aumentos substanciais da temperatura ambiente como as que se traduziram em glaciações intensas.

 Variados factos objectivos indicam-nos que a designada transição energético-climática4 imposta ao mundo pelo centro político sediado na União Europeia e nos EUA, aqui, não obstante o desconchavo negacionista dos tweets de Trump e dos berros de Bolsonaro, estará interessada, não no ambiente ou no clima, mas, de facto, na eficácia de extração de lucro na presente era de exploração capitalista.

 Depois de um período de dúvida e hesitação, os grandes empórios financeiros, industriais e mediáticos estão quase totalmente convertidos às lucrativas fórmulas da transição. E isso deveria determinar uma reflexão crítica naqueles que acreditam que tais políticas de transição, são ecológicas e favoráveis a uma «economia verde» que, por sua vez, seria uma alternativa às formas exploradoras da economia neoliberal.

 Muito do alinhamento acrítico perante as políticas climáticas situacionistas é determinado pelo medo, pânico mesmo, que se apodera das populações face ao discurso político e ao aproveitamento mediático sensacionalista.

 As drásticas políticas públicas que, na Europa e um pouco por todo mundo ocidental, os governos e centros de decisão económico-financeira querem impor para resolver o desafio climático, embora se louvem muito nas tecnologias, passam sobretudo pelo binómio impostos-subvenções. Essa fórmula, que castiga drasticamente o cidadão através, por um lado, de impostos e taxas desproporcionados e, por outro, de tarifas e preços crescentes por bens e serviços vitais, está muito longe de conduzir a resultados eficazes5.

 A especulação em torno do CO2 é enorme e, embora venha sendo feita desde há décadas, quase nada tem contribuído para aqueles que seriam os objectivos centrais: baixar as emissões e as concentrações atmosféricas em GEE (gases com efeito de estufa). Estes, principalmente o CO2, veem as emissões reduzirem-se, no fundamental, devido às crises económicas.

Os paradoxos de uma política incoerente

 Referir duas situações paradoxais que exemplificam a incoerente política libero-ambientalista: a estratégia do hidrogénio e o foco na descarbonização dos transportes, em particular nas viaturas para usos familiares, que envolve uma quase fogueira inquisitória sobre o uso dos combustíveis convencionais.

 Como se pode pensar que a transição energético-climática procura alcançar formas mais sustentáveis e racionais de vida se os novos veículos automóveis, que vão penetrando, embora com dificuldades notórias, nos mercados, são promovidos através de um marketing que propõe automóveis que, embora embrulhados em embalagens verdes, se fundamentam no paradigma da potência, velocidade, luxo e alto preço? Algumas das soluções concretas são materializadas, aliás, em veículos que, não obstante serem «grandes máquinas», são verdadeiras fraudes na vertente climática! Como muitos dos híbridos e os Plug-in em particular.

 Quanto ao hidrogénio verde, uma antiga ilusão que retorna cheia de fulgor, dizer apenas, porque não é possível desenvolver o tema nesta oportunidade, que, sob a batuta alemã, a União Europeia propõe-se, à custa de milhares de milhões de euros de subsídios públicos às grandes empresas, reintroduzir o hidrogénio como vector energético.

 Não obstante a evolução tecnológica, o rendimento energético do ciclo de produção-transporte-armazenagem-utilizações de hidrogénio verde é muitíssimo baixo: por cada 100 unidades de energia eléctrica – fotovoltaica e/ou eólica – utilizada para produzir hidrogénio, apenas cerca de 30 chegam como energia final utilizável ao consumidor. A necessidade de alavancamento com dinheiro público e tarifas elevadas prende-se com a ineficiência energética deste ciclo, além, claro dos elevados custos de investimento.

 Existem cada vez mais evidências de que as transições energético-climática e digital são o fulcro essencial do Great Reset que o capitalismo necessita para tentar escapar aos mais recentes longos períodos de crise financeira e económica, e à baixa tendencial da taxa de lucro. Quando Klaus Schwab escreve que «a tecnologia e a digitalização revolucionarão tudo… ou, pondo as coisas de uma forma simples, as principais inovações tecnológicas estão prestes a alimentar uma gigantesca mudança histórica em todo o mundo – inevitavelmente»6, sabe bem o que pretende. Ou não fosse ele o fundador e diretor executivo do Fórum Económico Mundial, promotor das luxosas reuniões na estância turística de Davos.

 James Lovelock (Hipótese de Gaia, 1960), defendeu, numa entrevista ao jornal The Guardian (2010), que a democracia pode ter de ser «colocada em espera» para prevenir as mudanças climáticas!

 O grande objetivo das políticas que evocam o clima para forçar caras e ineficientes transições forçadas, não está focado nas questões do ambiente, da Natureza, do Homem e do clima, mas, sim, nas necessidades do Capital.

 Na campanha montada para alienar as populações, designadas como «opinião pública», vale tudo. A climatologista Judith Curry, que participou durante anos no IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), cientista e professora universitária renomada, alerta: «No ambiente de hoje, a tendência para se tirar conclusões precipitadas faz com que seja demasiado fácil encontrar falsos padrões de aleatoriedade, ignorar explicações alternativas para um resultado ou aceitar resultados (ditos) razoáveis sem questionamento».

 De facto, a própria democracia no seu grau mais básico, poderá ser posta em causa a (des)propósito das alterações climáticas.

 A forma possível e desejável de mitigar as consequências das alterações climáticas deveria passar por vias gradualistas, adaptativas, científicas e sustentáveis, muito diferentes das formulações políticas que defendem a descarbonização radical num período curtíssimo, com resultados muito incertos e à custa de milhares de milhões de euros e dólares recolhidos coercivamente junto dos consumidores/contribuintes e injectados nas grandes empresas transnacionais, supostamente para alavancarem o desenvolvimento, mas, de facto, para aumentar-lhes o lucro. Tudo isto, sob o falso pretexto de que estaria garantida a catástrofe se não se actuasse aceleradamente e de acordo com guião libero-ambientalista.

 As importantes questões ambientais e climáticas não deveriam ser o único objetivo planetário das Nações Unidas, da Europa, dos EUA e doutras entidades líderes ocidentais – não é possível analisar aqui o papel da China – canalizando para ele recursos financeiros, humanos e naturais que tanta falta fazem para atacar outros grandes problemas que afligem milhares de milhões de seres humanos e vastíssimos territórios críticos para a Natureza.

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  1. Expressão usada por Bjorn Lomborg no seu recente livro False Alarm: How Climate Change Panic Costs Us Trillions, Hurts the Poor, and Fails to Fix the Planet, Basic Books, 2020.
  2. «Patterns of island change, and persistence offer alternate ad aptation pathways for atoll nations», by Paul S. Kench, Murray R. Ford & Susan D. Owen.
  3. NR: O teatro onde a maioria das peças de William Shakespeare foram estreadas. Foi construído pela companhia teatral do autor, Lord Chamberlain's Men, in 1599.
  4. S. V. Smil, Energy Transitions – History, Requirements, Prospects, ABC-Clio, 170 p., 2010.
  5. Sébastien Chapotard, «Politique environnementale française: de lourdes taxations et d’importantes subventions pour un résultat très limité», IREF -Institut européen de recherche militant pour la liberté économique et la concurrence fiscale, 28 nov 2020, em linha.
  6. Klaus Schwab, A quarta revolução industrial, p. 12, Levoir, WEF, 2017.

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[Artigo tirado do sitio web portugués Abril Abril, do 10 de decembro de 2020]

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