1.
Se se mantiver a tendência do primeiro turno, de vitória de Flávio Bolsonaro, perderemos muito como sociedade! Pois a questão, na presente eleição, não é de pura e simples derrota democrática do governo atual, e sim de qual projeto de civilização terá se sagrado vencedor na eleição.
Confesso que fiquei baqueado, chocado mesmo, com o resultado do primeiro turno! Apesar de as pesquisas eleitorais nunca apresentarem um favorito, eu esperava que Lula tivesse alguma margem de votos, para ter chance de repetir o feito de 2022. Infelizmente, eu estava errado.
Eu sei que essas últimas quase três semanas foram intensas, com a população mobilizando-se com o objetivo de evitar a barbárie. As forças progressistas não deram o braço a torcer e continuam lutando, ainda mais desesperadamente. Afinal, se Lula conseguir a façanha de virar o jogo, afastaremos o espectro do fascismo por mais alguns anos. Mas ainda que isso aconteça, a expressiva votação em Flávio Bolsonaro é prenúncio de turbulências futuras. Lula está em sua última jornada, e o lulismo se encerra com ele. Não existe herdeiro. Isso, por si só, já muito preocupante.
É fato que todas as vitórias de Lula em eleições anteriores – salvo a sua reeleição, em 2006 – foram revestidas de algum senso de urgência civilizatória. E essa urgência só aumentou com o passar das eleições. Com efeito, em 2002, contra José Serra, e em 2006, contra Geraldo Alckmin, a vitória do candidato petista foi contra a direita nacional e o projeto econômico-financeiro do neoliberalismo, capitaneado pelos Estados Unidos. No entanto, após o “impeachment” de Dilma Rousseff, em 2016, a direita brasileira retornou ao poder e preparou o caminho para ascensão de um ator até então pouco conhecido no cenário nacional: a ultradireita.
A eleição de Jair Bolsonaro, que somente foi possível após o fenômeno estadunidense “Donald Trump”, dois anos antes, confirmou a existência de algo muito sinistro na alma de nossa nação, já conceituado por Sérgio Buarque de Holanda décadas atrás, a saber, que o homem cordial brasileiro possui um ardil psicológico e comportamental que revela uma dubiedade de caráter, muito além do temperamento emotivo.
Já sabíamos disso. O que não sabíamos era que o caráter nacional, pelo menos parte dele, não pode mais ser traduzido apenas pelas categorias de cordialidade “buarquianas”, como a repulsa às regras formais, a mistura entre o público e o privado e a violência disfarçada, tudo envolto em um sentimento ambíguo que vem do coração, para o bem ou para o mal.
2.
De fato, desde a ascensão do bolsonarismo, boa parte da sociedade brasileira está envolta na ambiguidade emocional para o mal. Assim, o ódio ao nordestino, ao ser humano de cor, às comunidades LGBTQUI+, aos defensores do clima etc. faz parte de uma racionalidade orgânica da ultradireita que vê na pessoa diferente de si uma ameaça. O show de horrores dos eleitos para cargos do Poder Legislativo confirma essa perspectiva.
Então pergunto: e agora? Existe uma frase, falsamente atribuída a Winston Churchill (1874 – 1965), primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial, que diz: “Se entrares no inferno, permaneça nele”. Obviamente, ninguém quer permanecer no inferno. A ideia da frase seria a de ter resiliência, de permanecer vivo e atuante para sair dele. Será que, mais uma vez, vamos precisar ter resiliência para superar o governo do zero um? Porque não resta dúvida de que um novo governo Bolsonaro nos levará de volta ao inferno. Como o pai, Flávio Bolsonaro colocará o Brasil de volta ao mapa da fome, em menos de dois anos. E ficaremos de joelhos!
Definitivamente, não precisa ser assim. Será que já esquecemos das mais de 700.000 mortes pela Covid-19, ocorridas enquanto Bolsonaro pai fazia chacota e andava de motocicleta? Será que esquecemos que seu infame Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, queria desmatar e garimpar sem limites, passando a boiada?
Será que esquecemos que o miliciano Adriano da Nóbrega, morto covardemente pela polícia baiana, foi condecorado com a medalha Tiradentes, a maior condecoração do Poder Legislativo fluminense, enquanto estava preso, acusado de homicídio, em 09 de setembro de 2005, por iniciativa de Flávio Bolsonaro? Será que esquecemos que Bolsonaro pai tentou dar um golpe de Estado, com planos para matar Ministro do STF, Lula e seu vice? Esquecemos das cenas dantesca de invasão dos três poderes em Brasília por uma horda de fanáticos? Esquecemos que o esquema do Banco Master beneficiava diretamente a família Bolsonaro, apesar de não apenas a ela?
Concordo com o texto mais devastador de Luís Felipe Miguel sobre “O povo e sua vontade”.[1] A ignorância política das massas é um fato, e a esquerda brasileira nunca atuou efetivamente para combatê-la. É claro que não é só por burrice, mas também perversidade. Eu acrescentaria dois componentes, extraídos de John Gray[2]: o primeiro histórico, que estabelece que, “Sem dúvida a intolerância à realidade é inata ao espírito humano. Cada era tem uma imagem alucinatória de si mesma, que persiste até ser dispersada pelos acontecimentos” (p. 8); e o segundo, de cunho político-religioso, segundo o qual “…o declínio da religião que se deu no século XX fez-se acompanhar da ascensão da política fundada na fé, uma continuação da religião por outros meios que provou ser tão destrutiva como a religião em seus piores momentos” (p. 9). É possível introduzir, ainda, um componente psicológico, qual seja, o da persistência da mentalidade colonial.
3.
Ora, seria um erro afirmar que, desde que fomos “descobertos”, nossas elites jamais abandonaram a subserviência e a imitação da principal potência mundial? De fato, primeiro Portugal, depois a Inglaterra e, mais recentemente, os Estados Unidos, sempre exerceram o poder simbólico e material aqui dentro.
Nesse sentido, um tema muito pouco pesquisado, e que me parece de extrema relevância, é, como dito acima, a emergência do bolsonarismo como fenômeno de massa, em paralelo à ascensão do trumpismo. O fenômeno daqui não teria se criado sem o de lá. Parece que estamos sempre a reboque dos acontecimentos na vida do país susserano, atualmente nos Estados Unidos.
É claro que essa imitação tem interesses próprios aqui dentro. Lula é odiado, pela elite da “Faria Lima”, por tentar mitigar a sanha devoradora de recursos públicos pelos mais abastados. Mas também é detestado pela metade de um povo que necessita de um mito para dar sentidos às suas vidas. Afinal, Lula pode ter sido tudo até agora, menos um mito. Pelo contrário. Lula traduz o simples que deu certo.
Em outras palavras, Lula é o ser-comum que conseguiu, pelas próprias forças, superar as barreiras impostas pelo “status quo” nacional. O mito em si não, conforme as palavras de Nancy e Lacoue-Labarthe[3]: “O mito sempre foi o mito de um evento e de um advento, o mito do evento absoluto, fundador” (p. 15). Segundo esses autores, onde o mito é procurado, é o evento que é desejado. Mas qual evento os eleitores de Bolsonaro filho perseguem? O evento de submissão e imitação, de maneira autoritária ou não, da potência máxima do planeta, atualmente os Estados Unidos, que rege, e sempre regeu, nosso porvir.
Concordo, em parte, com Ruy Castro, quando disse que “Não é só a tentativa de volta a um passado que nunca existiu, mas a promessa de um futuro que também não existirá”.[4] O passado que metade do eleitorado brasileiro deseja ver de volta pode, realmente, nunca ter se sido vivido por uma boa parcela dos que agora o desejam. Mas a outra parte, sim.
Afinal, não só de jovens estamos falando. Ainda que os anseios pela família, pelos costumes, pela tradição, pela ordem, pela religião, pela defesa da liberdade e, vejam só, até pela defesa da democracia, sejam discursos de ordem imaginária, é justamente desse tipo de discurso que se nutre o mito.
Por outro lado, seria necessário investigar qual futuro não existirá, se o bolsonarismo voltar com toda a força. A emancipação política; a defesa do fim da exploração dos trabalhadores – notem o fim da escala 6×1 –; a luta pelo fim da devastação predatória da natureza – vejam que nunca se desmatou tão pouco a região amazônica como agora –; a manutenção do ganho real e progressivo, ainda que pequeno, do salário mínimo etc., não serão prioridade e serão prejudicados nesse cenário.
Esse é o futuro que desejam os eleitores bolsonaristas? Se sim ou não é irrelevante, pois esse certamente é o futuro que todos teremos, em repetição ao já existiu no governo de Bolsonaro pai.
É importante refletir sobre o que disse Nancy e Lacque-Labarthe: “A crença não surge por si, ela deve ser despertada e mobilizada nas massas” (p. 62). Nestas circunstâncias, a história serve como balizador sobre o que existirá ou não no futuro. A ultradireita nacional, assim como a mundial, conhece os ensinamentos de Hitler sobre como pôr as massas em movimento em direção a ela.
A esquerda tupiniquim parece esquecer completamente disso, para só lembrar, de tempos em tempos, quando precisa salvar o país da catástrofe, como aconteceu em 2002 e em 2022, na tentativa de reeleição de Bolsonaro pai. Nem sempre dá tempo…
É difícil prever o que acontecerá no dia 25/10/2026. A reação progressista se fez maior do que muitos esperavam no campo ultraconservador, após a vitória de Bolsonaro filho no primeiro turno. Todas as pesquisas estão dando empate técnico. Ao meu ver, a única chance que Lula tem é engajar os ausentes e os que votaram em branco ou nulo no primeiro turno. Eles somam mais de 33 milhões de pessoas. É gente suficiente para evitar a barbárie!
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Notas:
[1] https://lfmiguel.substack.com/p/o-povo-e-sua-vontade;
[2] GRAY, John. A anatomia de John Gray. Rio de Janeiro: Record, 2011;
[3] LACOUE-LABARTHE; NANCY, Philippe; Jean-Luc. O mito nazista. São Paulo: Iluminuras, 2020;
[4] https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/10/a-volta-a-um-passado-que-nunca-existiu.shtml.
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[Artigo tirado do sitio web aterraéredonda, do 20 de outubro de 2026]