Estados Unidos, o império contra-ataca na Venezuela

Bernardo Gomes -

Uma intervenção militar aberta na Venezuela, mesmo que disfarçada de revolta popular porque é claramente financiada pelos americanos, pode desencadear um processo global de desintegração da América Latina

O império tentou mais um ataque contra a soberania da Venezuela. Assim como fizeram em Cuba, a tal Operação Liberdade, buscou usurpar parte do exército junto com mercenários do próprio país treinados pela CIA, comandados por um fantoche da oposição, para um levante seguido de uma possível investida militar a fim de derrubar do poder quem não se alinha aos seus interesses econômicos.

 A história se repete, os EUA não largam mão da política externa intervencionista, de estrangular economicamente os povos latino-americanos, de manipular as suas políticas internas, e até mesmo atentar militarmente contra os seus povos. Não conseguem enxergar que a política intervencionista só aflora ainda mais o nacionalismo e o sentimento anti-imperialista nos países. A desculpa de levar a democracia liberal, é na verdade a Doutrina Monroe, ninguém coloca a mão no meu quintal.

 Após a primeira tentativa de golpe com a autoproclamação de Juan Guaidó a Presidente Interino em 23 de janeiro, a segunda tentativa golpista patrocinada pelo Departamento de Estado norte-americano fracassou. Guaidó não tinha nem o exército, nem as milícias populares, nem o povo ao seu lado, seu apoio vem da diplomacia norte-americana e de pequenos grupos possivelmente introduzidos pela própria CIA para dar caráter popular a operação.

 A diplomacia brasileira que sempre preservou a política de não intervenção e de autodeterminação dos povos, que reconheceu a Revolução de Fidel Castro em Cuba, que liderou a solução diplomática para o equilíbrio e legitimidade do Governo Chávez diante da comunidade internacional, hoje é patrocinadora do golpismo e da interferência da Casa Branca em Caracas, uma posição vergonhosa para o Brasil e submissa a política imperialista. O Presidente Jair Bolsonaro quer de todo jeito algum protagonismo pela queda do Governo Maduro, mas não passa de um fantoche de Donald Trump.

 Juscelino Kubitschek em encontro com Fidel Castro certa vez afirmou: “a oportunidade de conhecer, em profundidade, seu pensamento", dizendo que ele era “um idealista amargurado, que sofrera na carne as conseqüências do apoio dado pelos Estados Unidos às ditaduras na América Latina” concluindo que a acensão ao poder do líder nacionalista só foi possível devido a política intervencionista dos EUA, que financiaram ditaduras sangrentas alinhadas aos seus interesses.

 O ex-presidente Lula em sua recente entrevista a Folha de São Paulo e ao El País comenta que intermediou a solução pacífica para a Venezuela de Hugo Chávez com a comunidade internacional após tentativas de golpes influenciados pela diplomacia dos EUA. Lula chegou a dizer que ligava para Bush para esse conter a interferência norte-americana nos assuntos internos de Caracas, quanto mais Bush abria a boca contra a Venezuela, mais aflorava o nacionalismo, as passeatas e a coesão do regime bolivariano.

 Maduro poderá unificar mais ainda as suas bases de sustentação diante de uma intervenção militar, conta com apoio de China e da Russia, além de Cuba e Nicarágua. O Governo Bolivariano tem paradigma anti-imperialista do contrário que diz a guerra ideológica e o panfleto anti-comunista dos EUA. Enquanto o poder chavista não enxergar que a alternativa ao Maduro é a não intervenção dos yankees, eles não vão se render. Se a alternativa que se apresenta ao poder é alinhada a diplomacia e os interesses norte-americanos, terá resistência.

 Se os EUA provocarem um derramamento de sangue na Venezuela poderão ascender a fagulha nacionalista em toda a América Latina, hoje é cada vez mais crescente o sentimento anti-imperialista em diversos países devido a volta da política agressiva dos EUA de controle e intervenção na AL principalmente sob o Governo Trump.

 Os golpes de Estado recentes no Paraguai, Honduras, e no Brasil, os embargos econômicos criminosos contra Cuba e Nicarágua, e agora os avanços com todas as garras sobre a Venezuela deixam exposta a diplomacia norte-americana. Novo capítulo do imperialismo estadunidense sobre a América Latina, que foi nos últimos 20 anos a maior expressão de resistência ao neoliberalismo.

 Uma intervenção militar aberta na Venezuela, mesmo que disfarçada de revolta popular porque é claramente financiada pelos americanos, pode desencadear um processo global de desintegração da América Latina assim como foi a primavera árabe. Tudo pela guerra do Petróleo, os EUA querem a expropriação das maiores reservas de petróleo mundias que se encontram hoje em território venezuelano.

 Devido a polarização política mundial das novas potências econômicas que remontam o período da Guerra Fria, assistimos dois mundos: enquanto do lado de cá os EUA usam de intervenção, morte e expropriação do petróleo, do outro lado, sob a liderança da China, assistimos a implantação da nova rota da Seda, gerando livre comércio, desenvolvimento e integração.

_____________________________________________________________________________

Referências:

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. De Martí a Fidel: A Revolução Cubana e a América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, 687 p.

_____________________________________________________________________________

 

[Artigo tirado do sitio web brasileiro Vermelho, do 1 de maio de 2019]

Volver