França: Uma recomposição política dominada pela direita e a extrema-direita

Maurice Ulrich -

Na esquerda, se a decepção é clara para todos aqueles e aquelas que esperavam, como era justo pensar no último período da campanha eleitoral, que Jean-Luc Mélenchon iria para o segundo turno, isto não pode esconder a força de uma campanha excepcional que mobilizou milhões de homens e mulheres, políticos no melhor sentido do termo, frequentemente engajados na vida social

Com o resultado do primeiro turno há uma verdadeira recomposição política que se anuncia com um fato massivo e dominante, ou seja, uma nova orientação à direita da paisagem política. Emmanuel Macron pôde evidentemente se beneficiar de grande número de votos de esquerda, vindos tanto de indecisos como de eleitores que inicialmente haviam escolhido Benoît Hamon – o grande perdedor desta eleição. Mas não apenas em razão do voto útil que jogou a seu favor, com numerosos eleitores antecipando o segundo turno para derrotar Marine le Pen. Ele se beneficiou, para atrair a si uma parte da esquerda, do alinhamento claro ou mal disfarçado de dirigentes socialistas, entre estes François Hollande, decididos a arruinar o próprio Partido Socialista (PS) para empreender a viragem liberal já iniciada tanto pelo presidente como por Manuel Valls e seu governo.

 Resta o fato de que seu programa é totalmente liberal e próximo em muitos aspectos, como o Humanité demonstrou na semana passada, ao de François Fillon, seja sobre as questões da despesa pública, quer dizer, dos serviços públicos, da pressão sobre os desempregados, das finanças e outras questões da mesma ordem. Não lhe falta sequer o componente autoritário, uma vez que Emmanuel Macron pretende fazer passar desde o próximo verão e por decreto suas reformas de regressão social inclusive a desregulamentação do código do trabalho que a lei El Khomry já organizou.

Derrotar Marine Le Pen no segundo turno

 O primeiro efeito dessa recomposição em marcha  (sem jogo de palavras) é que os eleitores escolherão neste segundo turno entre uma visão liberal e de direita da sociedade e uma visão de extrema-direita.  A pole position de Emmanuel Macron hoje não é, em absoluto, a vitória de uma esquerda moderna e renovada, de alguma maneira ela só acrescenta direita à direita. Pode ser motivo de alegria que o resultado de Marine le Pen, embora importante, não esteja à altura daquele com que durante semanas se martelou com a regularidade de um estribilho. Está claro ao mesmo tempo que os eleitores terão o sentimento de derrotá-la no segundo turno e que, de nosso ponto de vista, evidentemente não há outra escolha, restando dizer que não se trata de um voto de adesão a Emmanuel Macron.

A recomposição da direita

 Nesta nova paisagem política, pode-se também apreciar adequadamente o resultado de François Fillon. Ele obteve certa recuperação nos últimos momentos, mas a própria direita, em todo caso uma parte dela, de fato reconheceu a falência de sua imagem, como talvez da lógica de seu programa. Desse ponto de vista, sem dúvida uma parte dos eleitores de Alain Juppé também migrou para Emmanuel Macron, o que também põe a questão, para o período vindouro, de uma recomposição da própria direita.

O fracasso do Partido Socialista

 Na esquerda, se a decepção é clara para todos aqueles e aquelas que esperavam, como era justo pensar no último período da campanha eleitoral, que Jean-Luc Mélenchon iria para o segundo turno, isto não pode esconder a força de uma campanha excepcional que mobilizou milhões de homens e mulheres, políticos no melhor sentido do termo, frequentemente engajados na vida social, portadores de uma vontade de transformação que para além da eleição pode manter-se intacta ou mesmo dair fortalecida. Diferentemente, o fracasso de Benoît Hamon, esta é a palavra, é uma verdadeira derrota do PS, desejada, esta é a verdade, com toda a consciência pela própria direita do PS. Ela não é somente a consequência de um quinquênio que esteve, desde os primeiros instantes, divorciado do povo de esquerda que tinha elegido François Hollande, mas a  consequência de uma orientação liberal, desejada e organizada, de que o quinquênio foi no fundo o instrumento.

O resultado de Mélenchon, base sólida para reconstruir a esquerda

 No total, doravante nos encontramos na França com quatro conjuntos políticos. A extrema-direita, não tão alta como desejava, mas com a capacidade de incomodar intacta. Uma direita conservadora que parece logicamente enfraquecida, sem que se possa presumir. Um conjunto social-liberal e direitista de contornos indefinidos e de maioria incerta nas próximas eleições legislativas, mesmo que a vitória faça em geral nascerem múltiplas vocações. Enfim, uma esquerda com um PS arrebentado em que não se vê como se poderia recuperar; mas com a base que doravante representa o resultado de Jean-Luc Mélenchon e que se pode considerar sólido, com o claro e afirmado apoio do Partido Comunista, do Conjunto e de outras forças. Em todo caso, é a partir dessa base que será necessário reconstruir, desde as próximas eleições legislativas, a esquerda e uma grande força de oposição a uma política que fará mal. É uma batalha já iniciada em numerosas circunscrições e pela qual a esquerda não teria nada a ganhar com a concorrência entre suas diferentes forças e candidatos, entre eles os atuais detentores de mandatos. Ela deve mobilizar toda a sua energia e inteligência.

 

[Artigo tirado do sitio web brasileiro Resistência, do 25 de abril de 2017]

 

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