Itália: e agora?

Pierre Levy -

O compromisso aceite pelos Srs. Di Maio e Salvini dá a entender que entre os partidos ditos «anti-sistema» e o próprio «sistema» não foram cortadas todas as vias de comunicação. Nem os dirigentes da Liga, nem muito menos os do M5S reivindicam uma hostilidade fundamental à integração europeia

 O que o novo governo italiano irá fazer permanece em muitos aspectos uma incógnita. Saiu de uma votação “anti-austeritária” e “anti-sistema”, mas nada garante que corresponda a esse sentido do voto. A burocracia europeia multiplica pressões - o que é normal nesta UE - e insultos - o que pode dar mau resultado. Uma coisa é clara: o progressivo afastamento e descrédito da UE perante os povos. Outra está para se saber: como reagirá a maioria do povo italiano se vir traído o sentido do seu voto.

 Os parlamentares italianos preparam-se para votar a confiança ao governo formado pela aliança entre o Movimento cinco estrelas (M5S) e a Liga, dirigido por um jurista novato em política, Giuseppe Conte.

 Fica assim – provisoriamente – concluída uma sequência marcada por uma sucessão de três golpes de teatro. Depois das eleições de 4 de Março a situação política transalpina parecia bloqueada. Mas a 9 de Maio – primeiro golpe de trovoada – o ex. Primeiro-ministro Sílvio Berlusconi, angustiado pela perspectiva de um novo escrutínio que seria provavelmente fatal para a sua formação política, Forza Italia, dava luz verde a que a Liga, sua aliada, se aproximasse do M5S.

 Em menos de duas semanas, os chefes do partido fundado pelo cómico Beppe Grillo, Luigi di Maio, e do movimento anteriormente autonomista do Norte convertido em força nacional proclamadamente anti-Bruxelas, Matteo Salvini, estabelecem um acordo sobre um programa e sobre uma equipa de governo. M. Conte, que não pertence a nenhum dos dois movimentos, é indicado para a dirigir.

 Depois, segundo terramoto: o presidente da República, Sergio Mattarella, opõe-se à nomeação de certos ministros, nomeadamente ao que é apontado para a pasta das finanças, Paolo Savona, considerado demasiado crítico em relação ao euro. O chefe de Estado não se esconde: está a dar seguimento à mal disfarçada rejeição da Comissão europeia, tal como de Berlim e de Paris, a esse gabinete tido por herético.

 Os senhores Di Maio e Salvini ficam furiosos. Sublinham que uma tal atitude escarnece do voto maioritário dos cidadãos. Parece de novo inevitável a convocação de novas eleições. Tudo leva a pensar que, em tal hipótese, a Liga sairia como grande vencedora, capitalizando essa negação da democracia. Hipótese que deixa as em estado de choque as elites dirigentes da UE bem com a classe política europeísta italiana.

 Seguem-se então discretas negociações. Último golpe de teatro: sai o governo de transição imaginado pelo presidente Mattarella (que teria à frente uma figura emblemática do FMI, verdadeira provocação após um voto claramente anti austeridade…); e reaparição de Giuseppe Conte que, depois de se ter declarado desistente, aceita finalmente dirigir uma equipa governamental M5S-Liga. Esta última, contudo, inclui certas cedências à vontade do chefe de Estado.

 É certo que Luigi Di Maio assume uma pasta muito ampla incluindo o trabalho e o desenvolvimento económico, enquanto Matteo Salvini herda a do interior, que não lhe agradava. Mas o efémero ministro das finanças Savona acaba finalmente nos negócios europeus, um lugar importante mas menos estratégico. O novo grande financeiro, Giovanni Tria, não coloca de modo nenhum em causa a moeda única. Quanto ao ministério dos negócios estrangeiros, fica entregue a Enzo Moavero Milanesi, que integrou os muito pró-UE governos Monti e Letta, e que trabalhou ele próprio durante muito tempo para Bruxelas.

 Que reter deste movimentado prólogo? E em que direcção pode conduzir esta configuração inédita?

 Primeira constatação: não foi possível ignorar o voto dos italianos a favor de partidos tidos como «anti-sistema» e acusados pela oligarquia de serem anti UE. Essa «aliança populista e de extrema-direita que aterroriza a Europa» constituía e permanece o pior pesadelo que Bruxelas podia imaginar.

 É testemunho disso o coro de imprecações por parte dos dirigentes europeus. Entre tantos outros, o actual locatário de Bercy martelou com insuportável arrogância: «em Itália todos devem compreender que o futuro da Itália está na Europa». E Bruno Le Maire pontificou sem réplica: «os compromissos que foram assumidos pela Itália (…) são válidos, qualquer que seja o governo». Em resumo, a Itália é livre de fazer as suas próprias escolhas, na condição de que elas não alterem nada.

 Os comissários europeus sucederam-se para se juntarem ao coro neste mesmo registo. O alemão Günther Oettinger merece o primeiro prémio: não hesitou em afirmar que os mercados financeiros saberiam bem como dar conta da vontade dos eleitores italianos.

 Existe entretanto uma segunda constatação: o compromisso aceite pelos Srs. Di Maio e Salvini dá a entender que entre os partidos ditos «anti-sistema» e o próprio «sistema» não foram cortadas todas as vias de comunicação. O que não constitui qualquer surpresa. Nem os dirigentes da Liga, nem muito menos os do M5S reivindicam uma hostilidade fundamental à integração europeia. O próprio Luigi di Maio encerrou a sua campanha com declarações de amor à Europa…O que recorda estranhamente a chegada ao poder do Syriza na Grécia, pretendendo combater a austeridade permanecendo na UE e na moeda única. É sabido o que se seguiu.

 Terceira constatação: o programa assemelha-se a um bric-à-brac barroco. O fim da austeridade, a colocação em causa da reforma das pensões, o endurecimento da política migratória, o levantamento das sanções contra a Rússia (um horrível pano vermelho para os dirigentes europeus), andam de braço dado com a baixa dos impostos, o rendimento mínimo dos cidadãos, a suspensão do túnel sob os Alpes ou o fim da vacinação obrigatória.

 Entretanto a concretização, mesmo que apenas de um quarto das propostas da primeira categoria, seria explosiva, em particular na terceira potência da zona euro.

 Três pontos de maior fricção são em particular susceptíveis de conduzir ao confronto logo no Conselho europeu previsto para final de Junho: a integração mais acelerada da zona euro, evidentemente contraditória com uma flexibilização da austeridade; a reforma da política migratória e de asilo, em que a Itália se situa na primeira linha; e a recondução das sanções contra a Rússia, recondução contra a qual os dois parceiros governamentais estão unidos.

 Sobra a interrogação maior: até que ponto a maioria dos italianos, que exprimiu a sua cólera no passado 4 de Março, estaria decidida a deixar-se brutalmente enganar? Até ao momento, parece impor-se a resposta pessimista.

 Mas desde há alguns meses, na Alemanha, na Áustria, na República Checa, na Hungria, os eleitores têm assumido um malicioso prazer em encadear estaladas endereçadas a Bruxelas. Sem falar do voto favorável ao Brexit. Em resumo, a ideia europeia está em frangalhos. Mesmo que uma recente sondagem «eurobarómetro» conseguia discernir cidadãos «cada vez mais favoráveis» à Europa, como acreditou poder sublinhar a italiana Federica Mogherini, chefe da diplomacia da UE. A este nível, já está muito à frente do método Coué (um método assente na auto-sugestão e na auto-hipnose).

 Já é humor.

 

[Artigo tirado do sitio web portugués ODiario.info, do 20 de xuño de 2018]

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