Na era do digital, o capital é você
Torna-se necessário compreender a articulação entre exploração econômica e produção de subjetividades. Não se trata apenas de denunciar condições materiais adversas, mas de analisar os modos pelos quais os indivíduos são levados a participar ativamente de sua própria sujeição
1.
O capitalismo contemporâneo não pode ser compreendido apenas como um sistema econômico baseado na produção e circulação de mercadorias. Ele é uma forma difusa de organização da vida, um regime que atravessa as práticas cotidianas, as relações sociais e a constituição dos sujeitos. Nesse contexto, emerge uma figura central que sintetiza as transformações em curso: o empresário de si info-precário e espetacular. Trata-se de um sujeito que administra a própria existência como um empreendimento, ao mesmo tempo em que vive sob condições estruturais de precariedade e exposição permanentes.
A mutação fundamental que caracteriza esse cenário é a dissolução progressiva das fronteiras entre trabalho e vida. O que antes se distinguia como tempo produtivo e tempo livre passa a integrar um mesmo contínuo. A conexão permanente, mediada por dispositivos digitais, transforma cada gesto em potencial atividade produtiva.
Produz-se valor ao comunicar, ao interagir, ao expor-se. A vida, em sua totalidade, torna-se matéria-prima de processos de valorização. Nesse sentido, o trabalhador não é apenas aquele que executa tarefas específicas, mas aquele que mobiliza sua atenção, sua afetividade e sua presença como recursos econômicos.
É nesse ambiente que se consolida o info-precariado. Diferentemente das formas clássicas de trabalho, esse novo contingente não se organiza a partir de vínculos estáveis nem de identidades coletivas bem definidas. Ele é composto por trabalhadores intermitentes, conectados, frequentemente isolados, que dependem de plataformas digitais para obter renda e reconhecimento. Sua condição é marcada pela instabilidade, pela ausência de garantias e pela dependência de sistemas de avaliação contínua. Ainda assim, esses indivíduos são incitados a se perceberem como autônomos, responsáveis pelo próprio sucesso ou fracasso.
Essa autonomia alienada constitui um dos mecanismos mais eficazes de governo contemporâneo. Ao internalizar a lógica empresarial, o sujeito passa a gerir a si mesmo como um capital. Ele investe em sua formação, em sua imagem, em sua rede de contatos. Ele calcula riscos, otimiza desempenhos, monitora resultados. O que se apresenta como liberdade é, na verdade, uma forma sofisticada de autoexploração. O controle não se exerce apenas de fora, por meio de instituições visíveis, mas de dentro, através de práticas de autogestão e autovigilância.
A dimensão espetacular desse processo intensifica ainda mais essa dinâmica. Não basta produzir; é preciso aparecer. A visibilidade torna-se condição de existência social e econômica. Cada indivíduo é chamado a construir uma imagem de si, a performar uma identidade atraente, a transformar sua própria vida em conteúdo. A exposição constante não é apenas uma escolha, mas uma exigência social. Aqueles que não se mostram tendem a desaparecer, tanto simbolicamente quanto materialmente.
2.
Essa espetacularização implica uma forma específica de alienação. O sujeito passa a se relacionar consigo mesmo como objeto. Ele observa, avalia e ajusta sua própria imagem conforme critérios externos, frequentemente mediados por algoritmos. Curtidas, compartilhamentos, avaliações e métricas diversas tornam-se indicadores de valor. A experiência de si é filtrada por essas mediações, produzindo uma relação instrumental com a própria existência.
Ao mesmo tempo, essa lógica está profundamente articulada com formas contemporâneas de poder que operam em múltiplas escalas. No plano individual, observa-se a emergência de práticas de autocoerção, nas quais o sujeito disciplina a si mesmo em função de metas de desempenho. No plano coletivo, essas mesmas racionalidades sustentam políticas que reforçam a competição, a desigualdade e a exclusão. A precariedade deixa de ser um desvio e passa a ser uma condição normalizada, distribuída de maneira desigual, mas amplamente disseminada.
Essa configuração também cria condições favoráveis à emergência de formas autoritárias de organização social. A insegurança material e simbólica, combinada com a responsabilização individual, tende a produzir ressentimento e busca por soluções simplificadoras. Discursos que prometem ordem, estabilidade e identificação encontram terreno fértil em contextos marcados pela instabilidade permanente. A combinação entre racionalidade econômica individualizante e autoritarismo político revela uma convergência que define muitos dos conflitos atuais.
Diante desse cenário, torna-se necessário compreender a articulação entre exploração econômica e produção de subjetividades. Não se trata apenas de denunciar condições materiais adversas, mas de analisar os modos pelos quais os indivíduos são levados a participar ativamente de sua própria sujeição. O empresário de si info-precário e espetacular não é apenas vítima de um sistema; ele é também operador de suas lógicas, na medida em que as incorpora e as reproduz em sua própria conduta.
Essa ambiguidade não elimina a possibilidade de resistência, mas a torna mais complexa. Resistir não significa apenas recusar determinadas condições externas, mas também problematizar as formas de relação consigo mesmo que foram naturalizadas. Implica questionar a equivalência entre valor pessoal e desempenho, entre visibilidade e existência, entre autonomia e autoexploração. Implica, ainda, reconstruir formas coletivas de vida que escapem à lógica da concorrência.
O que está em jogo é a redefinição das relações entre trabalho, vida e subjetividade. O desafio consiste em romper com a naturalização de um modelo que transforma a existência em empreendimento permanente e que converte cada indivíduo em gestor de sua própria precariedade.
Pensar alternativas exige recuperar a possibilidade de experiências que não sejam integralmente capturadas pela lógica da performance, da visibilidade e do cálculo. Trata-se de reabrir o campo do possível, afirmando que outras formas de organização social e de constituição do sujeito são não apenas desejáveis, mas necessárias.
[Artigo tirado do sitio web brasileiro aterraéredonda, do 9 de abril de 2026]