O «choque do século» e a estratégia imperialista de contenção da China

Luís Carapinha -

A ascensão vertiginosa da capacidade tecnológica chinesa, tendo como base a progressão demonstrada na cadeia de valor mundial, veio colocar em risco a supremacia dos EUA em sectores chave para a sua hegemonia

 A «guerra comercial» iniciada por Washington há perto de dois anos confirmou a existência de um novo patamar da confrontação estratégica do imperialismo contra a China, que muito previsivelmente marcará a evolução da situação mundial nas próximas décadas, naquela que muitos identificam como uma nova Guerra Fria.

 É claro que não se está perante uma disputa meramente comercial ou económica, mas sim da intensificação em larga escala da política que no passado fixou o objectivo da «evolução pacífica» chinesa e que visa a contenção da China e a sua instabilização interna e subversão do poder do Partido Comunista da China (PCC) e do caminho socialista. Desiderato atiçado pelo pano de fundo de arrastada crise estrutural do capitalismo e declínio relativo do poder dos EUA (e da arquitectura da Tríade) e o quadro de complexa rearrumação de forças em curso no mundo, no qual, precisamente, a China desempenha um papel central.

 Os ideólogos do sistema dominante dão largas à criatividade para esconjurar o espectro do socialismo. Aí estão, por exemplo, as teses que apresentam a investida dos EUA contra a China como o choque entre «dois modelos» opostos de capitalismo, o liberal (democrático) contra o estatal (ditatorial). «Capitalismo», embora de estado [da China], a que tanto os EUA como a UE insistem, não vá o diabo tecê-las, em não reconhecer o estatuto de economia de mercado…

 Contudo, a sanha anti-China nos corredores do poder dos EUA já não pode ocultar que a questão de fundo colocada pela experiência e ascensão económica chinesas é a do sistema fundamental de poder da República Popular sob a direcção do PCC. A par do fortalecimento do papel determinante do sector estatal, particularmente dos grandes conglomerados de empresas centrais estatais na orientação e desenvolvimento de uma economia mista, no âmbito do sistema económico básico que estipula o papel predominante da propriedade pública. Na essência, esta não constitui uma rivalidade de potência, apesar dos vínculos não subestimáveis de interdependência existentes, do facto inescapável da participação da China numa divisão internacional do trabalho sob hegemonia do grande capital e do próprio feixe de contradições internas com que se depara o socialismo com características chinesas, na etapa que o PCC define como a fase primária do socialismo na China.

 Assiste-se a uma confrontação estratégica em afloramento entre sistemas opostos de poder e organização social, que o imperialismo procura jogar em todas as esferas, da ideologia à economia, do comércio à tecnologia e da política ao domínio militar. Em que os EUA, apesar de todas as dificuldades e incertezas que se prendem com reconhecidas contradições e rivalidades de natureza inter-imperialista, não desistirão de procurar impor o alinhamento e subordinação dos principais actores do sistema, nomeadamente UE e Japão, numa «frente única» contra a China, até ao momento inexistente.

Confrontação de longo termo

 O acordo comercial e económico, designado de fase 1, assinado entre os dois países, dia 15 em Washington, não altera o quadro traçado. Representa fundamentalmente uma pausa na escalada tarifária, permitindo a Trump aliviar a pressão interna e concentrar-se na campanha para as eleições de Novembro. A guerra de tarifas contra a China atinge também a economia dos EUA e a sua espiral pode precipitar a nova recessão mundial que assoma no horizonte.

 Não se perca de vista, no entanto, os recentes discursos doutrinários de Pompeo e Pence relativos à ameaça da China, de uma obcecada retórica agressiva, confirmando que o imperialismo se prepara para uma confrontação de longo termo. Simultaneamente, os EUA não desistem das medidas discriminatórias de excepção na frente tecnológica e a campanha geral anti-chinesa prossegue em crescendo, desde a ingerência aberta em Hong Kong e a velha «causa» do Tibete, à densa cortina de manipulação em torno da situação na província do Xinjiang, sem esquecer a saliente questão de Taiwan.

 Sintomaticamente, dentro do campo mais reaccionário da política estadunidense não falta quem aponte a hostilidade anti-China como a verdadeira marca distintiva da presidência Trump. Mais ainda do que qualquer outra vertente da política de escalada generalizada das tensões internacionais e arrogante imposição do diktat de Washington que caracterizam a perigosa postura da actual administração.

 Useiros e vezeiros no recurso à demagogia primária, sectores ultramontanos do grande capital norte-americano e figuras de proa da extrema-direita neofascista que se confessam representados pela política da Casa Branca, como Steve Bannon – que inclusive reivindica o estatuto de eminência parda da chegada de Trump ao poder –, acenam freneticamente o papão da ameaça chinesa. Recrutando no seio da elite, ressuscitaram até uma relíquia do maccarthismo e da guerra ideológica contra a URSS, o agora denominado «Comité do Perigo Presente: China». Lobby da demonização da China, este preconiza um corte substancial de relações e a contenção e isolamento da principal potência emergente e segunda maior economia mundial.

 O unilateralismo de Trump, não poupando também «aliados», desvela-se, particularmente, no objectivo de desacoplação tecnológica e económica, que vai ganhando novos contornos e tracção nos círculos dominantes, havendo quem antecipe dentro de uma década a ruptura da «cadeia industrial» e o surgimento de standards tecnológicos separados e incompatíveis à escala internacional…

 É de sublinhar que a nova cruzada anti-China não se circunscreve ao governo de Trump e aos círculos mais retrógrados do establishment. Apesar da pugna intestina na classe dirigente e sistema de poder dos EUA, é cada vez mais consensual no seu seio a necessidade imperiosa de responder ao «repto estratégico» representado pela China, mesmo se a implementação do novo normal da política anti-China não se apresenta isenta de contradições.

 A propósito do acordo parcial assinado com a China, vozes autorizadas do Partido Democrata saltaram a terreiro, acusando Trump de fazer concessões em troca de «promessas vagas e inexequíveis»(1).

Ameaça ao imperialismo

 De facto, acompanhando a ascensão económica chinesa e o fortalecimento da influência de Pequim no mundo, a China emergiu nos últimos anos aos olhos da superpotência imperialista como a grande ameaça existencial. A doutrina de segurança nacional dos EUA foi revista, passando a apontar o antigo Império do Meio, a par da Federação Russa, como o «principal desafio».

 Não desconhecendo o significado profundo da parceria e articulação estratégica entre Pequim e Moscovo nos planos bilateral e multilateral, o documento classifica a China e a Rússia de «potências revisionistas». A consideração da Rússia como principal ameaça da NATO na recente Cimeira de Londres confirma que a principal preocupação com Moscovo se prende, acima de tudo, com a conservação do arsenal de dissuasão estratégica do poder russo face ao militarismo dos EUA, e consequente capacidade de projecção geopolítica do país euroasiático.

 É um aspecto de importância transcendente. Porém, a base material e peso económico russo não são comparáveis aos da China. A Rússia não integra hoje o grupo das 10 maiores economias mundiais e o seu produto anual representa aproximadamente um nono do PIB nominal da China.

 A verdade é que ao fim de 40 anos de «reforma e abertura chinesa» uma realidade perturbadora para os estrategas do imperialismo se tem vindo a revelar. É reconhecido que a política do «cacete e da cenoura» usada durante décadas não funcionou e o envolvimento diplomático e comercial da China não trouxe a almejada implantação de um sistema de livre-mercado, nem a «abertura política» e integração de Pequim na «ordem liberal internacional». Ao invés, o robusto crescimento económico serviu para «legitimar» o PCC e o «modelo de economia de comando estatal»(2).

 Realmente, a China não deixa de desempenhar um papel ímpar na promoção do desenvolvimento comum, construção de uma ordem económica mais justa e defesa da paz mundial. Continua a assumir maior preponderância em questões nucleares que tocam o nervo da relação de forças internacional. Na lista da revista Fortune das 500 maiores empresas do mundo relativa a 2019, pela primeira vez superou os EUA no número de empresas (129 contra 121). Tudo isto representa um desafio crítico para a agenda hegemónica imperialista e os interesses do capital financeiro transnacional.

 Acresce que a ascensão vertiginosa da capacidade tecnológica chinesa, tendo como base a progressão demonstrada na cadeia de valor mundial, veio colocar em risco a supremacia dos EUA em sectores chave para a sua hegemonia. Não é por acaso que um dos alvos centrais da ofensiva de Washington é o sector emergente da alta tecnologia chinesa, de que é exemplo a campanha mundial contra a Huawei. Soam os alarmes das linhas vermelhas porque os EUA sentem ameaçada a posição dominante dos seus monopólios tecnológicos, representando os sectores com maiores índices lucrativos, em contraste com a tendência geral de quebra das taxas de lucro e estagnação da sua economia. Concluindo-se assim que «Washington enfrenta agora o seu concorrente mais dinâmico e formidável da história moderna», cada vez mais também no plano militar, não obstante a diferença quase abissal do orçamento do sector entre os dois países.

 É neste contexto que Trump declara errada a política chinesa dos EUA dos últimos 25 anos e acusa o país asiático de todos os pecados, do roubo de tecnologia à perda de empregos e abuso da relação comercial. As suas alegações são falsas. Ignora que no bolo do superavit comercial chinês tem crescido a fatia dos artigos de alta tecnologia, reflectindo o próprio processo de desindustrialização dos EUA decorrente da progressão implacável da estagnação imperialista. E evade as vantagens comparativas e os lucros chorudos das empresas dos EUA obtidos por via do acesso à cadeia industrial chinesa e ao seu mercado interno, que superam o défice da balança comercial.

Méritos e desafios

 Cabe à direcção chinesa o mérito de ter logrado utilizar a política de «abertura» para potenciar o desenvolvimento produtivo e económico. O peso das exportações é hoje menor e o mercado e consumo internos adquiriram preponderância. Num contexto de abrandamento económico (mas em que a China continua a crescer a um ritmo que é quase o triplo do dos EUA), acesa competição internacional e crescente arbitrariedade por parte do imperialismo, o processo que tem como objectivo a construção de uma sociedade socialista na China enfrenta uma nova situação nos planos externo e interno.

 Para o povo chinês e o mundo é vital que o gigante asiático, ultrapassando dificuldades e desafios, prossiga com êxito o caminho de desenvolvimento económico e social, levando avante os magnos planos e tarefas assumidos pelo PCC como uma nova era de modernização nacional e do socialismo na China.

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(1) Ver https://www.newsweek.com/democrats-call-trumps-phase-one-china-trade-deal-extreme-disappointment-political-photo-op-1482412

(2) Aqui e adiante citação de Kurt M. Campbell and Ely Ratner, The China Reckoning. How Beijing Defied American Expectations, https://www.foreignaffairs.com/articles/united-states/2018-02-13/china-reckoning

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[Artigo tirado do sitio web portugués Avante, núm. 2.408, do 23 de xaneiro de 2020]

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