O estranho caso da UE: suicídio, assassinato ou eutanásia?

Daniel Vaz de Carvalho - 04 Ago 2022

A UE vive um processo em que as necessidades objetivas de manutenção do sistema capitalista são opostas às necessidades sociais e mesmo às meramente económicas. A austeridade aplicada ao proletariado representa a desumanização dos processos económicos e sociais ao serviço da oligarquia

1 – UE, propaganda e distopia

 Na UE o que salta à vista desde logo é a incompetência, a ineficácia dos seus dirigentes. Mas não só. Pelos media proliferam comentadores cuja nulidade é aflitiva, autênticos moinhos de palavras, repetem-se exaustivamente sobre os mesmos temas, incapazes de se debruçarem sobre as causas.

 A UE entrou no campo da distopia, a utopia negativa, deixou de representar os interesses dos seus países, deixou-se arrastar pela arrogância belicista do que mais negativo veio do outro lado do Atlântico: os neocons, que forjaram uma “ameaça russa”, nova versão da “ameaça russa” do tempo da União Soviética. Neste contexto, a NATO quer que os países dediquem 2% do PIB para o orçamento militar. Mau vai quando o orçamento militar é maior que o da cultura, em Portugal 0,25% da despesa da Administração Central.

 Que ameaça representava a Rússia quando nos finais de 2021, propôs um tratado de segurança coletiva aos países ocidentais, dada a expansão da NATO – ao contrário do acordado com Gorbatchov – e o intenso rearmamento da Ucrânia para prosseguir o conflito contra os independentistas antifascistas do Donbass e a Crimeia?

 A proposta foi desprezada e a UE em vez de se encaminhar para formas de convivência, segurança mutua nos padrões da OSCE, desencadeou uma guerra de desinformação, de manipulação de emoções, de forma a que as causas do conflito sejam ignoradas.

 A única maneira aceitável de definir o mundo é a estabelecida pelos EUA/ NATO. Nada mais deve ser considerado. A generalidade dos cidadãos vive num estado de profunda desinformação sem disso ter consciência, sendo incapaz de imaginar possibilidades diferentes num mundo multipolar. É o que podemos qualificar como distopia.

 Independentemente das redes informáticas e das impressoras 3D, o mundo não pode ser dirigido por uma entidade que quer ditar leis a todos os países, a povos cujo discernimento, interesses e vontade deixam de contar. Um centro decide “o que é melhor para eles”, como em qualquer fascismo.

 Com base no “atlantismo”, a UE deixa-se implicar na luta contra a China, assumindo que “as ambições e políticas coercivas da China desafiam os nossos interesses, segurança e valores.” Incapacitada de discernir, como em estado catatónico, a UE auto exclui-se do projeto económico e geopolítico mais ambicioso da História mundial. A sua exclusão do projeto Cinturão e Rota, que também atravessa a Rússia, custará caro, representa isolar-se do acesso a este megaprojeto e da Eurásia.

 Em todas as agressões levadas a cabo pelos EUA/NATO, a UE, tem sido a grande perdedora. Diziam os antigos que “os néscios copiam os erros dos grandes”: a UE chegou a um ponto em que nada faz nem pensa sem autorização aos EUA, vendo o mundo dividido em democracias e autocracias, aliados e adversários, tal como Washington os define.

 Os “comentadores” lá estão para defenderem tudo isto relativamente à Ucrânia de cuja vitória dizem dependerem os valores e a democracia na "Europa" (UE – NATO). Para provar o modelo de "democracia" que a UE e a NATO defendem em "unanimidade" (quem é que fazia chacota da unanimidade na RPDC?!) a clique de Kiev que emitiu selos com a efígie de Roman Szuchewycz comandante das forças ucranianas associadas aos nazis, responsáveis pelo massacre de até 100 000 polacos. (Intel Slava Z – Telegram 6/7)

 Além de ter proibido todos os partidos da oposição e preso apoiantes, deixando intocáveis os neonazis, em 19 de Maio o governo Zelensky mandou destruir todas as obras em língua russa ou traduzidas da língua russa. “Trata-se de destruir no mínimo 100 milhões de livros que veiculam o “Mal”. Algumas obras serão conservadas em bibliotecas universitárias para serem estudadas por investigadores sobre a origem do “Mal”. Neste auto-da-fé incluem-se os clássicos da literatura russa, de Pushkin a Tolstoi, Dostoievski, etc. Sendo habitual inverter a origem dos factos, houve quem acusasse a Rússia de queimar livros ucranianos...

2 – A economia das sanções

 As sanções são uma arma de guerra, ilegal, criminosa, de violação de direitos humanos sobre pessoas inocentes. O objetivo não anda longe de bombardear cidades sem instalações militares para provocar a revolta contra um governo que não se submeta aos interesses definidos pela NATO. O facto da generalidade da opinião pública aceitar esta situação de forma passiva e acrítica, mostra a que ponto a desinformação promove a perda de cidadania, o populismo e a extrema-direita.

 Em 2021, com uma incompreensível pesporrência, falavam na “bomba atómica das sanções” contra a Rússia – que andavam a aplicar desde 2014. Não lhes passou pela cabeça os efeitos das radiações que essas bombas produzem… nem o facto da Rússia estar mais bem preparada para as enfrentar, enquanto a UE fragilizada pela economia da dívida e dos oligopólios – os “mercados”! – estava exposta económica e financeiramente. Era um desastre anunciado, mas a UE sente aquela atração pelo abismo de que falava Nietzsche.

 E parece que o abismo atrai a UE. Num ano o euro perdeu 20% em relação ao dólar, continuando a cair, agravando a inflação, que se encaminha para os 10% na UE – sem os salários aumentarem, porque causariam inflação! De tal forma a UE se tornou disfuncional que aquela depreciação não se reflete nas exportações:   a Alemanha registou o primeiro défice comercial em 30 anos no valor de 1000 milhões de euros. Em maio, as exportações germânicas caíram 0,5% em cadeia e as importações cresceram 2,7%.

 As sanções contra a Rússia e outros países aos quais a NATO impôs o direito de decidir o seu destino, foram para a UE um desastre económico, impedindo relações mutuamento vantajosas com países do Médio Oriente, África, Ásia, América Latina. Era evidente, que não resultavam, mas na sua cegueira olhavam para a Rússia como uma economia não maior que a Itália, fazendo coro com Biden quando este afirmou que a Rússia era um posto de combustível com armas nucleares. Ora a Rússia é talvez o país com maiores recursos naturais, além de elevadas capacidades tecnológicas demonstradas nos mais diversos campos. Não verem que era líder na exportação de matérias-primas essenciais, como gás natural, níquel, trigo, petróleo, aço, carvão, potássio, entra no campo do delírio.

 A economia russa permanece estável, o rendimento das exportações de petróleo, gás e alimentos aumentaram, a taxa de câmbio do rublo está em alta. A Rússia tem tido soluções que praticamente anulam os efeitos das sanções, quer diversificando relações comerciais quer numa estratégia de substituição de importações apoiada nas suas capacidades tecnológicas, enquanto a UE está em sérias dificuldades e pior: sem soluções viáveis, dentro dos esquemas que defende.

 Que soluções tem a UE, quando a economia da Alemanha baseada na energia barata da Rússia, está num beco sem saída. O Nord Stream 2, que a NATO desde 2020 contrariava, não funciona. O Nord Stream 1, precisa de peças para manutenção de equipamentos ocidentais que as sanções impedem entregar. Pela terceira vez em pouco mais de um século, a Alemanha rende-se sem condições…

 Ignorando as leis da economia real, para salvar a finança, o BCE imprimiu milhões de milhões de euros que mais tarde ou mais cedo teriam de se confrontar com a realidade produtiva. O que a realidade mostrou foi uma economia estagnada e que o BCE nem sequer é capaz de controlar o que é (estupidamente, mas para agradar à finança) o seu objetivo central: a inflação. Perante a queda do euro e do aumento inflação o BCE decidiu aumentar os juros em 0,5%, que não irão ficar por aqui. Medida inútil baseada nos "mecanismos de equilíbrio do mercado" – que nunca funcionaram – e que agravarão o endividamento dos Estados, empresas e cidadãos, encaminhando-se para a recessão, que já atinge os EUA.

 Que os esquemas da UE não funcionavam, iludindo-se a opinião pública com transitórios crescimentos conjunturais, adiando o inevitável, mascarando-o com outras crises, era evidente há muito. Entre 2000 e 2019, o crescimento da anual da UE foi de 1,4%; na Zona Euro 1,2%, com a Alemanha nos 1,26% e países como Portugal (0,7%), Itália (0,2%) Grécia (0%) sem capacidade de crescimento e afogados em dívidas. Tudo isto tendo como pano de fundo os critérios da UE de limites do défice orçamental e do endividamento, cujo principal objetivo é, acima das necessidades sociais dos países, garantir o dinheiro para a finança, à qual o BCE dava de barato através da “facilidade transitória de liquidez” - “quantitative easing” - para depois os juros aos Estados serem os do “mercado”! E os governos aceitam isto… O resultado está à vista.

 Aquelas entidades da UE supranacionais, suprademocráticas – meras burocracias – a quem foi concedido o poder de fiscalizar os Orçamentos de Estado, emitir pareceres e ameaçar sanções, exibem a sua inutilidade, tão evidente quanto a sua arrogância.

 Prolongar os conflitos com a Rússia, tem como consequência mais visível continuar a devastação da economia da UE: não apenas as importações de matérias essenciais e estratégicas da Rússia cessam ou reduzem-se significativamente, como as exportações deixam de se realizar. Com o comércio internacional deteriorado pelo abuso de sanções e pela guerra, a UE é obrigada a procurar outros fornecedores, agora com custos muito maiores.

3 – A UE em queda livre

 A paz na Ucrânia é tão necessária para a UE como o ar que se respira. Mas defender a paz torna-se escândalo nos media. Na Ucrânia é-se preso, por aqui é-se ostracizado nos media.

 Seria altura dos "comentadores" se questionarem sobre que confiança poderão ter terceiros países quanto ao euro e à economia da UE, mas na UE exibe-se uma confrangedora incapacidade de discernir sobre acontecimentos e de alterar comportamentos e procedimentos.

 Num estado de completa alienação, nada mais sensato foi encontrado que aplicar um 7º pacote de sanções (!) com o embargo à compra de ouro à Rússia. Não entendem que ter ouro é ter valor, imprimir notas nada significa se não tiverem correspondência em bens, sendo muito relevante o ouro.

 Cerca de 60 “diretivas” europeias são todos os anos imperativamente transpostas para o direito interno de cada estado-membro da UE. Na maioria dos casos, não há debate algum. Depois, há mais de 10 000 "decisões" europeias, onde "especialistas" da CE emitem "recomendações" aos governos, segundo os cânones neoliberais, sobre suas despesas, suas receitas e "reformas" (saúde, educação, pensões) que devem ser obedecidas. As eleições perdem o sentido. Os governos são meros executores, a "democracia”, os “valores da UE”, meras cortinas de fumo. O verdadeiro governo é exercido por um bando de burocratas, agindo de maneira opaca[1]

 O BCE está organizado para os Estados subordinarem a sua soberania aos credores assegurando a perpétua obtenção de rendas financeiras, através da austeridade, o programa económico e social organizado segundo os interesses das oligarquias, proporcionando mão de obra sem reivindicações, alinhada no processo de "globalização" imperialista.

 Os países são dirigidos por nulidades como Macron, sem maioria, Scholz, Draghi que teve de se demitir, tal como no RU Boris Johnson. Se gerir é principalmente prever, a competência dos líderes da UE fica bem demostrada ao esperarem a queda de Putin... pelas sanções. Entretanto as manifestações de descontentamento popular contra o aumento dos bens essenciais, e também contra a NATO, aumentam, sendo silenciadas nos media.

 Um exemplo do voluntarismo que disfarça a incapacidade e descontrolo na UE, a ausência de planos capazes de resolver os problemas, é a recente "decisão" de von der Leyen para que que os consumos de gás na UE sejam reduzidos de 15% na tentativa de prescindir do gás russo.

 Em estrita obediência aos neocons de Washington, a UE para defender os corruptos e os neonazis no poder em Kiev, mergulhada numa gravíssima crise económica, comprou o encargo de sustentar os quase 7 milhões de ucranianos imigrados e manter o governo de Kiev a funcionar. Com o mesmo ar patético com que que anunciam sanções à Rússia, a CE aprovou em maio 9 mil milhões de euros de euros de ajuda à Ucrânia, para assistência humanitária, e reforço da defesa do país. Procedendo-se para já ao envio de mais de mil milhões de euros.

 A UE conseguiu o brilhante feito de se isolar económica e politicamente de grande parte dos Estados na sua periferia na Bacia mediterrânica, no Leste e em África onde a pobreza e endividamento não permitem um desenvolvimento sustentável mutuamente vantajoso com a UE. São países que agora vêm uma oportunidade de fugir ao império das transnacionais. Sentem-se mais perto dos problemas da Rússia que dos do ocidente. Formam-se alternativas ao bloco ocidental, com a Rússia e a China a liderarem, aos quais se juntam Índia, Cazaquistão, Irão, Indonésia, países da África do Egito à África do Sul, Venezuela, Argentina, etc., países que têm matérias-primas, muitos deles também indústrias e querem emergir do neocolonialismo.

 O ridiculo das políticas da UE e das sanções expressa-se nestes números: em maio a Rússia deixou de pagar dívidas a credores do "ocidente" no valor de 1,5 mil milhões de dólares. Mais significativo é o facto de em maio a Rússia receber o equivalente a 833 milhões de euros por dia pelas exportações de petróleo e gás para a Europa do ocidente, contra 663 milhões um ano antes. Note-se as sanções da UE muito agradam às empresas energéticas dos EUA, que lucram como dificilmente poderiam esperar...

 Não existe uma “política de defesa” europeia. A UE está morta, sem verdadeiros líderes e sem orientação, totalmente no controlo dos neocons dos EUA. Alinhando com aquelas figuras de absoluta falta de utilidade, apoiadas pelos EUA, como Guaido, o gang dos "amigos da Síria", ou Tikhanovskaia da Bielorrússia, contra Maduro, Lukashenko e Assad, todos estes indo muito bem, obrigado! (Andrei Martyanov).

 A única hipótese para os países da UE é acabarem com as estúpidas sanções e estabelecerem uma colaboração mutuamente vantajosa – à margem dos interesses das transnacionais – com ao que se designa bloco Euroasiático, Caso contrário, resta-lhe permanecer como apêndice transatlântico dos EUA. Porque estes têm capacidade de sobreviver entre vissicistudes graças às suas matérias primas e poder militar.

 A negação da realidade, a incapacidade de entender as causas e sobretudo aprender com os erros, são sintomas do declínio político, económico e social da UE. Resta-lhe a propaganda e o autoconvencimento dos seus “valores”, que se perdem na sua “democracia” oligárquica e no alinhamento imperialista.

4 - A UE e a guerra na Ucrânia

 Disse o primeiro-ministro A. Costa, na AR, que há várias causas estruturais para a inflação, mas a principal é a agressão da Rússia contra um Estado soberano e independente como a Ucrânia. Faltou acrescentar: Uma agressão perpetrada por um Estado que não faz parte da NATO ou aliados como a Arábia Saudita (Iémen) ou Israel (Líbano, Palestina), pois só estes estão autorizados – pela “comunidade internacional”, eles próprios – a agredir Estados ou povos em qualquer continente.

 Nem se esperava que dissesse outra coisa, pois na NATO compete aos governos submeterem-se ao que é decidido em Washington. Na realidade não existe uma guerra entre a Ucrânia e a Rússia, essa acabou nas duas primeiras semanas; nem mesmo da NATO europeia com a Rússia, que dois meses depois teria terminado. O que existe é uma guerra entre os EUA e a Rússia, com a UE pelo meio exibindo a sua irrelevância militar, desorientação política, fragilidade económica. Resta-lhe propaganda muito assertiva para mascarar tudo isto e para que o “ocidente” lute até ao último ucraniano.

 A clique neonazi de Kiev sem capacidade industrial militar, depende de equipamentos a munições para continuar a defender a política projetada pelos neocons de Washington. Segundo o Coronel (R) norte-americano Douglas McGregor, as tropas ucranianas falharam e não poderão recuperar o que já perderam. Ninguém na Europa quer uma guerra com os russos. A maioria das forças armadas desses países são puramente simbólicas. Sem capacidade para suportarem um golpe dos russos. Os europeus não estão prontos para lutar. Alinharam com Biden em como Putin seria rapidamente levado a renunciar. E acreditaram. Agora temos uma lição. A Rússia tem muitos recursos, talvez o país mais rico em recursos, e não vai recuar: os índices de popularidade de Putin estão subindo. Afinal, ele defende a Rússia. (Intel Slava Z – Telegram 22/7)

Comparação do HIMARS com o Tornado-C.

 A propaganda excedeu-se dizendo que com os HIMARS dos EUA o curso da guerra iria mudar e a derrota da Rússia seria visível já a partir de julho – depois adiada para o fim do ano... Devido à sua eficiência e alcance, conseguiram infligir perdas ao exército russo, danificando uma ponte estrategicamente importante e destruindo vários depósitos militares. No entanto, essas unidades imediatamente se tornaram alvos sendo fornecidas evidências da destruição de vários desses sistemas. O seu custo era em 2020, US$5,6 milhões, sem os mísseis. A chegada à Ucrânia de sistemas de mísseis antiaéreos S-400, alterou a situação. Em 21 de julho foram intercetados e derrubados todos os 12 mísseis lançados.

 Afinal o que está a UE a defender na Ucrânia? Quanto aos EUA entende-se o seu desígnio geopolítico. Mas a UE, só por masoquismo ou cegueira coletiva alinha nesta loucura, em que um corrupto como Zelensky que a CIA denunciava em 2019, alcançou o poder aliado a um mafioso, mantém-se aliado a neonazis num Estado policial, baniu onze partidos da oposição e realizou um reino de terror contra oponentes políticos, como o ex-líder das forças de esquerda ucranianas, Vasily Volga, e os irmãos Kononovich, líderes da Liga dos Jovens Comunistas da Ucrânia, acusados de serem pró-russos. O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), tem o mesmo tamanho que o FBI, apesar da Ucrânia ser 16 vezes menor que os EUA. Em UKR LEAKS Vasily Prozorov ex-elemento da SBU revelou os crimes cometidos pelo regime de Kiev desde 2014, apresentando documentos secretos, fotos e vídeos.

 Recentemente, foi aprovada uma lei anti sindical para destruir a legislação laboral: A UE serve de argumento: “Um trabalhador deve ser capaz de regular sua relação com um empregador, sem o Estado” “Isso é o que acontece num Estado se for livre, europeu e orientado para o mercado. Caso contrário, o país estará com uma perna num comboio expresso para a UE e com outra dentro num comboio da era soviética indo noutra direção”. As leis aprovadas tinham sido derrotadas em 2020-20121 em resultado de uma campanha de protesto dos sindicatos, uma perspetiva agora difícil de imaginar devido à lei marcial.

 Pelos vistos os partidos socialistas/sociais-democratas apoiam e defendem tudo isto, incluindo o domínio dos oligarcas, o desprezo do governo de Kiev pelas leis e democracia, a corrupção denunciada nos Pandora Papers, a pobreza generalizada já antes da guerra, o neonazismo. Para manter tudo isto, que os diabólicos russos querem eliminar, a UE decidiu providenciar 9 mil milhões de euros. Ao nível do comediante de Kiev, Boris Johnson acaba de lhe atribuir o prémio Winston Churchill !

 A UE comprometeu-se também a participar na reconstrução da Ucrânia. Como e quando, não esclareceram. Mais de 10 milhões de ucranianos foram afetados pela guerra, um quarto da população precisa de alimentos básicos; 24 000 km de estradas e 5,5 milhões de casas foram danificadas ou destruídas; os danos ambientais são consideráveis; quase cinco milhões de empregos foram perdidos; estima-se que a economia encolherá 41% este ano. Segundo a estimativa há cerca de um mês seriam necessários 700 mil milhões de euros para a reconstrução. Quem paga? Mas a guerra prossegue e nos media ai dos que defendam a temática da paz[2].

5 – Acerca da (in)segurança energética da UE

 Qual era o plano da UE para passar sem gás e petróleo russos quando começou a aplicar em 2014 sanções à Rússia? Nenhum. No mais puro delírio apenas se lembraram em 2021, achando que os EUA e outros fornecedores – vários também sob sanções, como a Venezuela e Irão! – os substituiriam… a Rússia iria sofrer, “libertar-se” de Putin, colocando em seu lugar outro Yeltsin de boa memória no ocidente!

 Agora a UE vê a segurança energética dissipar-se e “comentadores” nos media parecem lacrimejar mostrando como a Rússia é má para a UE. Então, que plano tem a UE nestas condições? Chegar a acordo com a Rússia como fornecedora de energia? Nunca, antes terá de ser derrotada e Putin substituído.

 O próprio FMI parece mais preocupado com o desastre da UE que Bruxelas: o corte total de gás russo poderia levar na Alemanha a uma redução do PIB de 3%, mas noutros países da Europa Central e Leste poderia chegar a 6%. Independentemente, desta situação limite que a NATO e UE provocaram, com o boicote ao Nord Stream 2, sanções a peças para o Nord Stream 1, no início de 2020 o gás custava à UE 100 euros por 1000 metros cúbicos, um ano depois 250 euros, em junho deste ano 1 700 euros, tendo já ultrapassado os 2 000 euros.

 Quem ganha com isto claro que é a Rússia, mas também nos EUA as empresas energéticas que aumentaram as vendas para a UE em 34%. Quem perde: a UE, que devia saber que sem energia barata e abundante não há crescimento económico nem competitividade internacional.

 O sector estratégico da energia revela a espantosa debilidade política dos líderes da UE, a começar pela sra. von der Leyen, que sem dúvida faria melhor se se dedicasse à sua bem louvável especialidade médica. Pois esta senhora que foi ao Japão ameaçar a China (!?) nada melhor inventou para baralhar os países que querer reduzir em 15% os consumos de gás - 15% que representam 30% do que é importado da Rússia – e os outros 70%?

 A questão é: onde está o planeamento para prescindir do gás economicamente transportado nos gasodutos parcialmente fechados pelas sanções, e fazer complexos terminais portuários para receber nas quantidades necessárias um abastecimento seguro? Planeamento em termos de localizações, projetos de engenharia, prazos, mão de obra, materiais e equipamentos necessários, cadernos de encargos, etc. Custos? Quem paga? Quais são os novos fornecedores? Que contratos estão em curso?

 Tem-se falado no gás para uso doméstico e produção de eletricidade, mas em países como a Alemanha há setores industriais que podem colapsar sem o gás e sem preços que lhes permitam continuar a produzir.

 Outro beco em que a UE se meteu é o do petróleo russo. O que acima dissemos acerca do gás, aplica-se ao petróleo com a nota que receber petróleo de outras proveniências – quais? – exige a readaptação das refinarias para crudes com composições diferentes, dado o teor de elementos que é necessário depurar e as características dos produtos obtidos. Também aqui, não existe planeamento, nem que fornecedores serão escolhidos, nem a que preço. E dizer que a UE poderia receber petróleo e gás russo económica e fiavelmente... Mas Putin é mau e não obedece à "comunidade internacional"...

 Todas estas transformações e adaptações, teriam de ter começado há muito pois são trabalhos complexos, extremamente onerosos, com muitas frentes de trabalho simultâneas, para as quais não está garantida a disponibilidade de pessoal qualificado em quantidade suficiente e respetivos efeitos sobre outros setores. A menos que a UE pretenda importar produtos refinados a um preço muito mais caro. É, de facto, muito difícil entender as razões dos suicídas...

 De qualquer forma, não existem os estudos económicos e projetos de engenharia para estas situações, pelo que ou a UE muda (mudará?...) de procedimentos ou espera que a Rússia seja derrotada e os Chicago boys tomem novamente conta do país como nos anos 1990. Se estudassem História, saberiam que isso seria outra "vitória de Pirro" e o desencadear, mais cedo ou mais tarde, de uma grande tragédia.

 Assim, para além da propaganda e das reuniões da UE em que se mascaram divergências, o que se prepara é uma economia em declínio, empobrecimento da população, aumento dos défices das Balanças Comerciais, o euro em queda, fábricas e refinarias a fecharem. Entretanto, a China irá ultrapassar os Estados Unidos em capacidade de refinação de petróleo, importando quantidades cada vez maiores de petróleo bruto da Rússia.

 Outra decisão no âmbito dos combustíveis tem que ver com a inconsequente forma de tomar decisões na UE. Trata-se de acabar com a comercialização de carros com motores de combustão, a partir de 2035. Onde está o estudo, o planeamento (sabe-se que têm horror a esta palavra, é tudo o mercado…) as ações a tomar, como, quem, funções e responsabilidades das entidades envolvidas, implicações comerciais. Que consequências para as fábricas existentes? Vão ser remodeladas? Como, quais, quando? O PE sem nenhum estudo concreto, votou segundo a proposta da CE e agora só falta os ministros dos 27 aprovarem as “zero emissões em carros novos" em 2035.

 Acerca da “descarbonização” esclareça-se que entre 1937 e 2020, o teor de CO2 na atmosfera aumentou cerca de 50%, as áreas naturais reduziram-se na mesma proporção: 50%[3]. Parece evidente que a recuperação das áreas naturais deveria ser uma prioridade. Mas estas coisas não são vistas assim, porque as medidas de “combate às alterações climáticas” têm duas vertentes: nada contra as transnacionais, tudo a bem das transnacionais.

 Curiosamente nenhum dos anti CO2, que fecharam as económicas centrais termoelétricas, parece incomodar-se com as emissões originadas na guerra na Ucrânia, pela aviação, equipamentos motorizados, explosões resultantes de mísseis e artilharia, etc.

6 – Será suicídio ou crime?

 A UE encontra-se nas mãos de suicidas que Jorge Vilches apresenta como "idiotas úteis” divididos em três categorias: os "idiotas de carreira bem treinados" focados em ganhar salários e vantagens muito acima de suas capacidades, apesar da óbvia mediocridade e que não se atrevem a questionar, duvidar, muito menos desafiar o sistema ou os ditames da UE. Todos eles sabem o que o top-cock (ou top-hen) diz para fazer, dizer ou pensar, mesmo que contra os melhores interesses europeus. Uma segunda categoria agrupa os principais líderes visíveis da UE – muitos não eleitos – que podem ser corruptos como é tradicionalmente permitido ou considerarem-se escolhidos por Deus para liderar a UE a um destino glorioso, não importa se sequestrando qualquer capacidade de representação e valores que representem. Um terceiro grupo são os que para não abandonarem a sua zona de conforto político e económico/financeiro permitem que os seus dirigentes traiam os interesses que dizem defender.

 Tudo isto é condimentado com 12 948 organizações registadas como lóbi (junho de 2021), 15 das quais com um investimento em lóbi superior a 5 milhões de euros, para cerca de 40 000 funcionários em Bruxelas. A Ucrânia ajuda a disfarçar a incompetência e oportunismo desta “élite”, mas custa caro. Segundo Oleg Ustenko, conselheiro económico de Zelensky, a Ucrânia precisa de 9 mil milhões de dólares por mês dos países ocidentais para cobrir o défice orçamental, quase o dobro de anteriores pedidos. (Intel Slava Z – Telegram 13/7). Enquanto os orçamentos dos Estados têm que ser aprovados pelos burocratas de Bruxelas, para a Ucrânia escorrem sem condições, milhares de milhões, além do armamento que terá de ser reposto nos arsenais da NATO, comprado na maioria aos EUA.

 Entretanto a UE isola-se, como é lógico, dado que 85% da população mundial não pertence à NATO. A Rússia e a China fortalecem os laços económicos com outros países que se vão juntando aos BRICS, e a criação de uma "nova moeda de reserva global", prossegue, sem que os media considerem ter interesse informativo.

 Pode o sistema ser salvo? Interroga a ativista norte-americana Karen Greenberg referindo-se aos EUA. A mesma questão transfere-se para a UE. A UE vive um processo em que as necessidades objetivas de manutenção do sistema capitalista são opostas às necessidades sociais e mesmo às meramente económicas. A austeridade aplicada ao proletariado representa a desumanização dos processos económicos e sociais ao serviço da oligarquia. Veja-se como têm aumentado os lucros do grande capital aqui, aqui, aqui. Etc.

 O “projeto europeu” é um mito para impor o neoliberalismo, o capitalismo rentista, usando a violência física se necessário. As forças progressistas enfrentam medos e obscurantismo. O que o “projeto europeu” realiza é uma sociedade de cidadãos sem capacidade para controlar as suas vidas, submetidos por estratégias de sobrevivência. O belicismo e a tentativa de rearmamento da “Europa”, que o discurso político dominante apresenta como uma necessidade para a defesa dos “valores europeus”, resulta em que a UE e os ucranianos são já os grandes vencidos.

 A fraqueza da UE, os custos da guerra, a inevitável degradação de segurança e de condições de vida resultantes das vagas de refugiados e do aumento do custo dos bens essenciais, constituem a tempestade perfeita para o desenvolvimento de movimentos populistas e fascizantes. Será mais uma das consequências das opções dos dirigentes europeus, do seu oportunismo, da sua curteza de vistas, da sua pequenez.

 Como é que uma potência que propõe um tratado de segurança coletiva, que a outra parte recusou, é considerada uma ameaça à segurança? Todos os avisos da Rússia sobre a expansão da NATO, foram ignorados. Podiam ao menos ouvir o velho Kissinger em Davos: “a política da UE está errada… e deve ser mudada imediatamente… ou o dano aos EUA e seus aliados será severo e permanente. As negociações (com a Rússia) precisam começar nos próximos dois meses”. Mas se a guerra económica contra a Rússia não ajuda a UE, então porque seguem os EUA como ovelhas? Se a UE não está preparada para quebrar sua subserviência aos EUA, vai por fim deparar-se com problemas ainda mais sérios.

 A investigação sobre o estranho caso da UE prossegue. Mas há suspeitos. Os suicidas de Bruxelas, os hitman de Washington, e a clique de Kiev que está a praticar a eutanásia à UE.

 É caso para dizer, estamos – os que cá vivemos - tramados com esta gente.

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Nota:

[1] Behind the Tin Curtain: BRICS+ vs NATO/G7

[2] Sobre aspetos militares ver: As três guerras da Ucrânia: a militar, a política e a económica (1) e Os conflitos atuais vistos por um especialista Chinês (1)

[3] Uma vida no nosso planeta, David Attenborough, Bertrand, p. 19 e 107

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[Artigo tirado do sitio web portugués Resistir.info, do 1 de agosto de 2022]