O neoliberalismo e o antineoliberalismo

Emir Sader - 04 Ago 2026

A ditadura do livre mercado transformou o Estado em vilão e a política em balcão de negócios, mas a insurgência popular forjou governos capazes de reerguer a muralha dos direitos sociais contra a voracidade do ajuste fiscal

1.

 Como caracterizar aos governos antineoliberais, como os do Brasil, do México, da Colômbia, da Venezuela, do Uruguai, de Honduras? O que eles têm em comum?

 Esses governos atuam nas linhas de menor resistência dos governos neoliberais, atacam seus pontos mais significativamente mais frágeis. O neoliberalismo propõe uma politica de ajuste fiscal como forma de, ao mesmo tempo, combater a inflação, diminuir os gastos do Estado e abrir o mercado interno. Pretende que, com a contenção da inflação, o poder aquisitivo dos salários suba e se produza uma distribuição de renda. A redução dos gastos do Estado permitiria diminuir a carga tributária, enquanto a abertura da economia pressionaria os preços para baixo.

 Todos os presidentes neoliberais tiveram uma lua de mel relativamente longa, conseguiram se eleger e se reeleger por conta do combate à inflação. Para isso foi necessária uma intensa campanha que promovesse o combate à inflação – e não as questões sociais – como a preocupação central das pessoas. A inflação sintetizaria todos os problemas da sociedade e faria do Estado o alvo a atacar, porque e’ o Estado quem emite dinheiro, quem inflaciona.

 Tendo acumulado responsabilidades a cumprir, especialmente no campo dos direitos sociais durante o longo ciclo do desenvolvimento econômico contínuo, recaiam sobre o Estado os ônus desses gastos, quando a estagnação e a recessão econômica, além do pagamento da divida externa, multiplicada pela alta taxa de juros, diminuíam drasticamente a capacidade de arrecadação e a disponibilidade geral de recursos. Para fechar as contas, os governos inflacionam e desvalorizam continuamente tanto a moeda, quanto os salários.

 O neoliberalismo chegou à América Latina pela via da promoção da inflação como tema central a combater e, como responsável dela, ao Estado. A tese do Estado mínimo é onde desemboca a tese da ingovernabilidade, que se refere ao desequilíbrio entre direitos acumulados e capacidade do Estado de responder por eles. Ao invés de promover mais produção, o neoliberalismo se propõe a cortar gastos estatais.

 Esse diagnóstico se impôs como consenso a partir da campanha sistemática dos agentes do capital financeiro contra a inflação e contra o Estado, a qualquer preço. Cortar recursos do Estado representa cortar direitos, empregos, rebaixar a qualidade das políticas sociais de educação, de saúde, e de todas as demais.

2.

 Uma vez promovido o combate à inflação como objetivo prioritário, assumido pela opinião pública, forjada pelos meios de comunicação, todo o resto se justificaria, todos os esforços e sacrifícios valeriam a pena para equilibrar as contas publicas, como meio para conter a inflação e impor a estabilidade monetária.

 Essa foi uma transformação de fundo das preocupações de construção da democracia e do enfrentamento dos problemas sociais para o combate à inflação, o que privilegia as ações governamentais de ajuste fiscal. Foi uma mudança de projeto hegemônico na sociedade, ancorada na mudança da opinião publica, com um novo tipo de consenso e de sentido comum.

 A esquerda foi pega de surpresa, não encontrou resposta para o tema da inflação e da crise fiscal do Estado. Ainda mais que o argumento de que “a inflação e’ um imposto aos pobres”, que são os que não conseguem se defender da inflação, tem uma raiz profunda na realidade e na cabeça das pessoas.

 Esses novos consensos deixaram a esquerda na defensiva. A iniciativa na nova agenda passou totalmente para as mãos da direita, que redefiniu termos até ali monopolizados pela esquerda, como o das reformas. Reformas passaram a significar nãos mais reformas democráticas das estruturas de poder tradicionais, como reforma agraria, reforma urbana, reforma tributária, entre outras, mas reformas de desmantelamento do Estado, na ótica dos ajustes fiscais. Que na verdade são contra-reformas.

 A esquerda, de progressistas, passou a ser taxada de conservadora, defensora do Estado e das suas regulamentações, dos direitos sociais e dos gastos correspondentes, do fechamento do mercado interno à economia internacional.

 Todas as determinações na contramão da globalização neoliberal, que aparecia como a via que iria desbloquear a expansão econômica. Aos olhos do senso comum, a esquerda passava a encarnar uma resistência ao progresso econômico, promovido pela globalização. A historia parecia retomar um processo de universalização das relações econômicas, diante da qual os Estados nacionais, os sindicatos e a própria política pareciam ser obstáculos a ser superados.

 A diminuição do direito do Estado mediante as privatizações, o enfrentamento das politicas sociais e os gastos correspondentes, a diminuição dos servidores públicos, o afrouxamento das regulações estatais – tudo levou a uma redefinição das relações de poder na sociedade. Com o mercado assumindo a centralidade e, com ele, as grandes empresas nacionais e estrangeiras, enfraqueceram também a vida política, esvaziada das maiores definições sobre os grandes temas nacionais.

 Assim, a mercantilização geral das relações sociais chegou à politica, em que o peso dos recursos econômicos foi fazendo com que os Congressos foram ocupados, e, grande parte, por lobbies, que representam diretamente os interesses das grandes corporações econômicas e de outros interesses privados.

 De repente surgira governos sui generis, que pareciam impossíveis poucos anos antes. Governos eleitos como expressão das mobilizações de resistência aos governos neoliberais.

 Os governos neoliberais combinaram políticas de elevação dos salários acima da inflação – que segue sendo o mecanismo mais eficiente e direto de distribuição de renda – com a criação de grande quantidade de empregos com carteira assinada, de politicas complementares para setores específicos. O Bolsa Família permaneceu como um símbolo dessas políticas.

 

[Artigo tirado do sitio web brasileiro aterraéredonda, do 2 de agosto de 2026]