O ponto sul da linha de defesa dos EUA
Donald Trump pensa em termos de linhas de defesa, exatamente como os estrategistas da Guerra Fria pensavam em contenção. Mas toda linha de defesa tem duas pontas. Se a Groenlândia ancora a estratégia no norte, onde está a âncora sul? Esta é a pergunta que deveria estar sendo feita em Brasília, em Buenos Aires, em toda a América do Sul
A cortina de fumaça epistemológica do Norte
A Groenlândia tem dominado o noticiário internacional. As declarações de Donald Trump sobre a possibilidade de anexação do território dinamarquês, seja por compra ou por meios coercitivos, ocuparam manchetes em todos os grandes veículos de comunicação do mundo. Analistas de política internacional, think tanks e acadêmicos dedicaram milhares de páginas para interpretar os significados geopolíticos da obsessão trumpista pelo Ártico. Mas essa profusão de análises revela, ela própria, um problema epistemológico fundamental: a centralidade cognitiva do norte global.
Existe uma economia política da atenção que privilegia sistematicamente o que acontece no hemisfério norte. Tudo que ocorre acima do equador parece mais relevante, mais urgente, mais merecedor de compreensão. A Groenlândia importa porque está próxima da Europa e dos Estados Unidos, porque envolve a OTAN, porque toca em questões do Ártico que afetam as potências tradicionais. Mas e se fizéssemos um exercício diferente? E se perguntássemos: quais são as implicações da doutrina Trump para o hemisfério sul? Se a Groenlândia é o ponto norte da estratégia de defesa americana, qual seria o seu equivalente meridional?
Para compreender essa questão, é preciso primeiro entender a visão de mundo que orienta a política externa trumpista. Donald Trump declarou explicitamente que o hemisfério ocidental é “nosso hemisfério”, ressuscitando, sem qualquer constrangimento, a lógica da Doutrina Monroe de 1823. Não se trata de retórica vazia: toda a arquitetura de política externa do segundo mandato de Donald Trump está orientada para um confronto de larga escala com a China, tratando inclusive aliados históricos como a União Europeia como potenciais adversários ou, na melhor das hipóteses, como parceiros não confiáveis.
A estratégia anti-China é multidimensional: ataca as linhas de acesso chinês à energia (disputando influência no Oriente Médio, pressionando Venezuela e Irã), busca estrangular o desenvolvimento tecnológico chinês (via restrições a semicondutores e guerra de tarifas), e contesta a soberania chinesa sobre áreas específicas como o Mar do Sul da China e Taiwan. Os Estados Unidos de Donald Trump não estão apenas competindo com a China; estão se preparando para um cenário de confronto militar direto.
Para os países do Sul Global, isso significa que a política de apaziguamento não funcionará. Na lógica trumpista, não existe espaço para neutralidade ou equidistância. Os países do hemisfério sul são concebidos fundamentalmente como espaços provedores de recursos para o Norte, como retaguarda estratégica americana, e como territórios que devem ser negados à influência chinesa. Qualquer tentativa de diversificação de parcerias será interpretada como deslealdade; qualquer aproximação com Beijing será tratada como ameaça.
A geometria da Guerra Fria 2.0
Donald Trump pensa em termos de linhas de defesa, exatamente como os estrategistas da Guerra Fria pensavam em contenção. A Groenlândia faz sentido nessa lógica porque o Ártico é o caminho mais curto entre os Estados Unidos e a Rússia, e entre os Estados Unidos e a China. Do polo norte, é possível manter vigilância sobre o hemisfério oriental, detectar lançamentos de mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) e garantir tempo de reação a contra-ataques. A Groenlândia é, geometricamente, um posto avançado ideal para monitorar ameaças vindas da Eurásia.
Mas toda linha de defesa tem duas pontas. Se a Groenlândia ancora a estratégia no norte, onde está a âncora sul? Esta é a pergunta que deveria estar sendo feita em Brasília, em Buenos Aires, em toda a América do Sul, mas que permanece invisível sob a cortina de fumaça epistemológica que concentra toda a atenção analítica no Ártico.
Para responder a essa pergunta, realizei um exercício de geometria geopolítica. Tracei uma linha geodésica partindo da Groenlândia (especificamente do Cabo Farewell, o ponto mais meridional do território, a 59,75°N) e a projetei em direção ao sul, atravessando o Oceano Atlântico. A questão era: onde essa linha, que representa a extensão lógica da estratégia de defesa trumpista, tocaria terra no hemisfério sul?
Os resultados são reveladores. Uma linha geodésica partindo da Groenlândia com azimute de aproximadamente 170° (direção sul-sudeste) atravessa o Atlântico e atinge o Nordeste brasileiro como primeiro ponto de terra no hemisfério sul. Mais especificamente:
Natal (RN) está a apenas 22 quilômetros da linha geodésica. Recife (PE) está a 24 quilômetros. João Pessoa (PB) está a 34 quilômetros. Fernando de Noronha está a 326 quilômetros.
A distância total da Groenlândia até o Nordeste brasileiro, seguindo essa linha, é de aproximadamente 7.300 quilômetros. O ponto onde a linha cruza o equador está em torno de 35°W de longitude, em pleno Atlântico equatorial, próximo ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo e ao Atol das Rocas, ambos territórios brasileiros.

A história como prólogo: Natal e o trampolim da vitória
Que a linha geodésica Groenlândia-Sul passe quase exatamente sobre a cidade de Natal não é uma coincidência desprovida de significado histórico. Durante a Segunda Guerra Mundial, Natal foi a principal base militar norte-americana na América do Sul, conhecida como o Trampolim da Vitória. A cidade era, e continua sendo, o ponto continental das Américas mais próximo da África. Dali, aviões americanos cruzavam o Atlântico para apoiar as operações no Norte da África e, posteriormente, na Europa.
A Base Aérea de Parnamirim, nos arredores de Natal, chegou a ser a base aérea mais movimentada do mundo durante a guerra. Estima-se que mais de 100.000 militares americanos passaram pelo Rio Grande do Norte entre 1942 e 1945. O Nordeste brasileiro foi, naquele momento, absolutamente central para a estratégia de projeção de poder americana no Atlântico.
Os estrategistas de Donald Trump certamente conhecem essa história. A geometria do Atlântico não mudou desde 1942. Se os Estados Unidos precisarem projetar poder sobre o Atlântico Sul, vigiar as rotas marítimas que conectam América do Sul e África, ou estabelecer uma linha de defesa meridional complementar à âncora ártica da Groenlândia, o Nordeste brasileiro será, inevitavelmente, o ponto focal.
O interesse estratégico americano no Atlântico Sul não se limita a geometria militar. O Brasil possui as maiores reservas de petróleo em águas profundas do hemisfério ocidental, concentradas na camada do pré-sal. A Petrobras desenvolveu tecnologia de exploração em águas ultraprofundas que não tem paralelo no mundo. Essas reservas representam exatamente o tipo de ativo energético que a estratégia trumpista busca assegurar para os Estados Unidos e negar à China.
Vale lembrar que a descoberta do pré-sal, em 2006, foi seguida, em 2008, pela reativação da Quarta Frota americana, desativada desde 1950. A coincidência temporal não passou despercebida pelos analistas brasileiros na época. Com Donald Trump, essa pressão tende a se intensificar. A lógica de “nosso hemisfério” implica que os recursos energéticos da América do Sul devem estar disponíveis para os Estados Unidos, e não para competidores estratégicos.
A Petrobras, nesse contexto, não é apenas uma empresa de energia; é um ativo geopolítico de primeira grandeza. Qualquer governo brasileiro que busque diversificar parcerias na área de energia, que negocie com a China acordos de tecnologia ou exploração conjunta, ou que simplesmente tente manter uma política soberana sobre seus recursos naturais, entrará em rota de colisão com a doutrina Trump.

Implicações para as eleições brasileiras e a política de defesa
Se a análise apresentada aqui estiver correta, as eleições brasileiras de 2026 serão disputadas sob a sombra da doutrina Trump. A escolha que se apresentará ao eleitorado brasileiro não será apenas entre projetos domésticos de esquerda ou direita, mas entre diferentes posturas frente à pressão americana por alinhamento incondicional.
Um governo brasileiro que busque autonomia estratégica enfrentará resistência. Isso não significa que a autonomia seja impossível; significa que terá custos e exigirá preparo. O Brasil precisará:
Primeiro, desenvolver uma política de defesa que leve em conta a possibilidade de pressão americana sobre o Atlântico Sul. Isso inclui investimentos em capacidade de vigilância marítima, defesa costeira e, especialmente, proteção das instalações offshore de petróleo.
Segundo, articular uma estratégia de comunicação que traduza para a opinião pública brasileira o que está em jogo. A cortina de fumaça epistemológica do norte não afeta apenas analistas; ela molda a percepção popular. O brasileiro médio sabe que Donald Trump quer a Groenlândia, mas não faz ideia de que a lógica trumpista tem implicações diretas para Natal, Recife e o pré-sal.
Terceiro, a Petrobras precisa ser pensada como ativo estratégico, não apenas como empresa. Isso tem implicações para a política de preços, para a política de parcerias internacionais, para a política de investimentos em refino e para a estrutura de governança da companhia.
Quarto, diversificar parcerias sem ingenuidade. A aproximação com a China é inevitável e desejável, mas deve ser feita com consciência de que provocará reação americana. O Brasil precisa calibrar essa aproximação de modo a maximizar benefícios e minimizar vulnerabilidades.
Donald Trump quer a Groenlândia porque ela é estratégica para a defesa do hemisfério norte. Mas toda linha de defesa tem dois pontos. Se prolongarmos a lógica trumpista para o sul, se traçarmos a linha geodésica que conecta a âncora ártica ao Atlântico meridional, chegamos a uma conclusão que deveria preocupar Brasília: o ponto sul da linha de defesa de Donald Trump é o Nordeste brasileiro.
Natal, Recife, João Pessoa, Fernando de Noronha, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo. O pré-sal. A Petrobras. Todos esses nomes deveriam estar presentes nas análises sobre a doutrina Trump com a mesma frequência com que aparece a Groenlândia. Não estão, porque a cortina de fumaça epistemológica do norte nos impede de ver o óbvio: que somos parte do tabuleiro geopolítico trumpista, quer queiramos, quer não.
A Groenlândia do Sul não precisa ser descoberta. Ela já tem nome, tem história, tem petróleo. Só falta que comecemos a pensar nela como o que ela é: um ponto de interesse estratégico para uma potência que não esconde suas intenções imperiais. A questão que resta é se o Brasil terá clareza e capacidade para responder a esse desafio.[1]
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Nota:
[1] Os cálculos geodésicos apresentados neste artigo foram realizados utilizando a biblioteca geopy em Python, considerando a curvatura terrestre e as fórmulas de Vincenty para distâncias geodésicas. O ponto de partida utilizado foi o Cabo Farewell, Groenlândia (59,75°N, 43,9°W). Os azimutes e distâncias foram calculados para múltiplos pontos de referência no Atlântico Sul.
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[Artigo tirado do sitio web brasileiro aterraéredonda, do 17 de xaneiro de 2026]