O que está em jogo no Curdistão?

António Abreu -

A 25 de Setembro, realizou-se um referendo no Curdistão iraquiano sobre a independência do território. Num contexto complexo, Israel defende abertamente a existência de um Estado curdo, como parte dos seus esforços para «remodelar» o Médio Oriente

No passado dia 25 de Setembro o «presidente» Barzani, do Curdistão iraquiano, avançou que tinham votado no referendo de independência, com carácter não vinculativo, 3,3 milhões de habitantes do Iraque situados na zona designada por «dos curdos iraquianos». Terão participado na votação 72% dos potenciais eleitores. E, destes, cerca de 93%, segundo Barzani, votaram pela independência.

 Os curdos que votaram expressaram a sua alegria, enquanto os países atingidos pelas consequências desta consulta – Turquia, Iraque, Síria e Irão – falaram de imediato em retaliações. O Iraque, que já tinha pedido a todos que não comprassem o petróleo do Curdistão – o Curdistão assenta em grandes reservas petrolíferas – passou também a pedir que fossem encerradas as representações diplomáticas em Erbil, capital do Curdistão iraquiano.

 O presidente não constitucional do Curdistão iraquinano, Barzani, anunciou que todas as populações desse território e dos territórios anexados poderiam participar no referendo. Mas nessa altura já três milhões de cidadãos não curdos tinham sido forçados a fugir. Foram, portanto, eleitores seleccionados que foram convocados para as eleições para decidir o futuro não só no lugar dos habitantes legítimos expulsos, mas também de todos os outros iraquianos.

 As condições de transparência da consulta não tiveram credibilidade mas o resultado parece funcionar como algum capital de negociação com o governo central.

 A independência do Curdistão iraquiano violaria as disposições da Conferência de Sèvres (1920), ao deixar passar o Curdistão do território turco para território iraquiano, e provocaria contágios em situações de vários estados não reconhecidos como tal(1). Mas, fora de portas, o referendo foi amplamente criticado, especialmente pela Turquia, Síria e Irão, três países vizinhos com importantes minorias curdas. Na Síria, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Walid Muallem, classificou o referendo como totalmente inaceitável, embora se tenha mostrado disposto a falar sobre a autonomia com os curdos do seu país.

 Os Estados Unidos disseram estar profundamente decepcionados com a decisão de se ter mantido o referendo, opinando que aumenta a instabilidade da região, mas, de facto, apostaram na carta curda na região e é claro que essa instabilidade lhes servia os planos de dificultar uma rota comercial que eles hoje não dominam (a nova Rota da Seda), para já não falar no desejo de lhes ser concessionada a exploração das reservas petrolíferas. Mas os EUA têm que ter cuidado com o apoio que derem, porque a contrapartida será um reforço da aliança Turquia-Iraque-Síria-Irão, países a quem o idealizado grande Curdistão pretendia ficar com territórios. Ou mesmo na versão só da independência, agora declarada, de parte do território do Iraque ou da eventual «Rojava», independência da parte da Síria que faz fronteira com a Turquia.

 O secretário-geral da ONU, António Guterres, também reiterou a sua preocupação pelo risco de desestabilização. A União Europeia (UE) pediu a todas as partes que resolvam os problemas por meio de um diálogo pacífico e construtivo. Os riscos de contágios noutros pontos do mundo são conhecidos.

Turquia, Iraque e Curdistão

 Por estes dias, a Turquia e o Iraque terão acordado numa nova via de comunicação entre ambos que acabasse com os rendimentos aduaneiros do Curdistão iraquiano, proclamado independente.

 Este acordo poderá mesmo permitir um avanço da Turquia sobre este território, depois de, num passado recente, ter apoiado a sua autonomia, incluindo com a compra directa do petróleo curdo, a tal ponto que Barzani arriscou o referendo da independência.

 A Turquia enfrenta uma federalização do Curdistão turco que na pior das hipóteses poderá afectar outras zonas sensíveis do país.

 Aparentemente, a Turquia antes apoiada pelos países ocidentais para conter a influência russa, terá mudado de estratégia, afastando-se da NATO e aproximando-se da Rússia, que procura a estabilidade dos países que dantes seriam afectados pelo projecto de um Curdistão constituído por partes da Turquia, da Síria, do Iraque e do Irão

Os Acordos Sykes-Picot de 1916

 O surto do independentismo na região curda do Iraque reside, há cerca de um século, nos acordos secretos entre a França e a Inglaterra, de 1916, que ficaram conhecidos pelos nomes dos dois negociadores: Mark Sykes e François Georges-Picot. Estes acordos visavam estabelecer as zonas de influência das duas potências e o controlo dos países árabes, após o eventual desfazer do Império Otomano depois da I Guerra Mundial. Só que os russos, após a Revolução de Outubro (o czar participara com estatuto menor nessa combinação), divulgaram abertamente o acordo, o que provocou grande embaraço nas potências ocidentais e a ira no mundo árabe.

 No desenhar das fronteiras de então os curdos viram afastadas as hipóteses da criação de um Estado próprio e mantiveram-se como comunidades mais ou menos independentistas noutros países.

Israel e o Curdistão

 Só Israel apoiou abertamente este referendo lançado por Barzani, por ele poder enfraquecer os países árabes vizinhos.

 No mês passado, antes do referendo, na conferência de Herzlyia contra o terrorismo – uma das conferências anuais que Israel realiza sobre temas de segurança –, a ministra da Justiça deste país, Ayelet Shaked, defendeu a existência de um Estado curdo, afirmando que isso seria parte integrante dos esforços de Israel para «remodelar» o Médio Oriente.

 Esta ideia da «remodelação» já vem desde Ben Gurion, que quis romper o isolamento de Israel no mundo árabe, criando relações de boa vizinhança com países governados por monarquias despóticas no Irão (então Pérsia), Iraque, Síria, Turquia, que não fizessem perigar a sua posição nomeadamente pela influência do nacionalismo árabe, representado por Nasser, presidente do Egipto. Ariel Sharon expandiu essa doutrina de segurança no início dos anos 80, reclamando para Israel uma posição dominante na região, com a ajuda da bomba atómica, que seria do interesse dos EUA. Essa posição hegemónica ser-lhe-ia garantida pela implosão do Médio Oriente, frustrando os estados neles existentes através do estímulo à discórdia sectária e étnica. Nesse período, Israel também testou esta táctica no vizinho a norte, o Líbano, que ocupou por duas décadas. São conhecidas até que ponto conseguiu alimentar aí tensões sectárias entre cristãos, drusos, muçulmanos sunitas e xiitas.

 O projecto para a criação de um Sudão do Sul e um Curdistão é um objetivo militar israelita desde o desenvolvimento de mísseis, no final dos anos 90.

 Dos 8,5 milhões de israelitas que vivem em Israel, cerca de 200 mil são de origem curda. Em Março de 1951, a «Operação Ezra e Neemias» (nome dos personagens bíblicos que organizaram a fuga dos judeus da Babilónia) permitiu que 11 mil curdos judeus emigrassem do Iraque para Israel. Esta operação foi financiada pelo American Jewish Joint Distribution Committee, de Nova Iorque. Os aviões utilizados neste transporte aéreo foram cedidos pelo ditador cubano Fulgencio Batista.

 A família Barzani, que governa o Curdistão iraquiano com mão de ferro, está historicamente ligada a Israel. O pai do actual presidente Massoud Barzani, Mullah Mustafa Barzani, era um oficial sénior da Mossad.

Israel e o Iraque

 Israel trabalha para os curdos do Iraque há décadas e, nos anos 60, foram mesmo oficiais reformados seus quem treinaram os combatentes. Essas ligações mantiveram-se mais ou menos activas e não é de estranhar que, agora, nos comícios pela independência aparecessem bandeiras israelitas, enquanto os curdos, falando entre eles, manifestam a ambição de tornar o Iraque num «segundo Israel». Como não é de estranhar que Israel veja os curdos como um aliado muito importante numa região dominada pelos árabes. Com a influência do Estado Islâmico a desvanecer-se, um Curdistão independente poderia ajudar a evitar que o Irão preenchesse o vazio deixado. Israel transferiria armas, serviços secretos e know-how para aliados xiitas na Síria e no Líbano. Os interesses actuais de Israel, no entanto, sugerem uma visão maior que há muito elaborou para a região, tal como o jornalista Jonathan Cook sustenta no seu livro O Choque de Civilizações(2).

 Segundo este jornalista, ainda hoje se pensa que foi um efeito colateral da invasão do Iraque, em 2003, a divisão de sunitas, xiitas e curdos. Mas cada vez mais se suspeita que isso foi intencional. Agora, os curdos iraquianos estão quase a garantir o carácter permanente dessa separação.

Novos entendimentos e outros alvos

 Depois de há meses a Síria ter praticamente ganho a guerra que sofreu durante seis anos e de os EUA aparentarem querer acabar com o ISIS e respeitar a integridade da Síria, os EUA estão uma vez mais a ter uma atitude dúplice, ao fazerem alianças «pouco ortodoxas» com os vários grupos terroristas, entrelaçados com grupos curdos (YPG e o próprio PKK) e que se traduzem na instabilidade e divisão contínuas na região.

 Os curdos no Iraque passaram a ser fustigados e a fustigar o Daesh através dos célebres peshmerga. E agora são muitos os jovens curdos que, com repúdio das famílias, se alistam no Daesh.

 Ainda recentemente jornalistas alemães descobriram armas do seu país abandonadas pelo Daesh. Isso fez com que, por iniciativa de partidos de esquerda no Bundestag, nele se discutisse que quantidades significativas de armas de guerra do exército alemão, entregues aos curdos para combaterem o Daesh, poderiam já estar a transitar para o Daesh.

 Também já houve vários relatórios credíveis, desde que a aliança militar liderada pelos EUA se formou para ajudar a combater a Daesh na Síria e no Iraque, de acordo com os quais armas fornecidas pelos Estados Unidos caíram nas mãos de milícias não aliadas e até mesmo do Daesh.

 Os EUA armaram os curdos e apoiaram os seus esforços desde que os ajudaram a estabelecer as «Forças Democráticas da Síria», em 10 de Outubro de 2015. Os EUA precisavam de financiar um grupo dentro da Síria que estivesse a lutar contra Daesh e que pudesse vir a entender-se com ele. Em 1 de Outubro de 2017, Omid Kabar, comandante das Forças Democráticas Sírias (SDF, na sigla em inglês), apoiadas pelos EUA, disse num funeral de combatentes das SDF que tinham sido mortos na cidade de Raqqa, que as SDF não transferiria a cidade de Al-Tabqah ou qualquer outra área sob seu controlo para o controlo do governo sírio.

 O que contraria a ideia de que os EUA defenderiam a integridade da Síria. Os EUA declararam que sua principal razão para estar na Síria seria lutar contra a Daesh, mas as suas ações provaram o contrário. A sua verdadeira missão é desestabilizar o país ajudando os curdos através das SDF e outros grupos armados.

 A Síria passou pela guerra que conhecemos e agora os curdos das Forças Democráticas Sírias(3)  já estão a trabalhar em conjunto com o Estado Islâmico. E Teerão é, novamente, o alvo dos esforços de Israel e dos seus aliados nos EUA para destruir o acordo nuclear de 2015, encostando o Irão à parede.

As reorganizações e limpezas étnicas

 O primeiro-ministro israelita prometeu a Massoud Barzani transferir 200 mil cidadãos israelitas para ajudar na administração do Curdistão iraquiano(4). A maior parte destes vive em Jerusalém e são israelitas curdos que invocam a sua expulsão do Iraque nos anos 50.

 Para as forças armadas israelitas o ideal seria estender o Curdistão iraquiano para além de Kirkuk, para o Norte da Síria. Seria essa a tarefa do YPG e do seu «Rojava», nome também dado à autonomia de três cantões no Norte da Síria, por alguns chamada Federação Democrática do Norte da Síria.

 Os líderes das SDF(5) anunciaram que tentariam anexar a maioria da cidade árabe de Raqqa se conseguissem libertá-la. Em Junho de 2017, os curdos participaram activamente na limpeza étnica de árabes de Raqqa em massa, com o fim de abrir caminho para a anexação da cidade à sua «Federação» declarada unilateralmente após a sua captura.

 Quando o Daesh invadiu a parte do Iraque que os Estados Unidos já lhe tinham concedido, fez os Yazédis prisioneiros e escravizou-os. A grande maioria dos Yazédis são curdos, mas, os vizinhos Barzani não intervieram, mesmo quando alguns fugiram para as Montanhas Sinjar. Esses fugitivos foram finalmente salvos pelos comandos turcos do PKK. Os curdos turcos salvaram-nos, independentemente de serem curdos ou não. Usaram essa vitória para exigir o reconhecimento dos ocidentais (que os consideravam desde a Guerra Fria como terroristas). O reescrever deste caso pelos Barzani não apaga esse crime contra o seu próprio povo. Além disso, desde a libertação das suas terras, os Yazédis que lá permaneceram proclamaram seu próprio governo autónomo. Recusam-se a ser administrados por outros curdos e boicotaram o referendo(6).

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  1. Abkhazia, Norte de Chipre, Nagorno-Karabakh, Kosovo, Ossétia, Saara Ocidental, Somalilândia e Transnístria. E duas regiões europeias onde se têm revelado a vivacidade das intenções de independência: a Catalunha, de que tanto se tem falado, nestes dias, mas também a Escócia.
  2. Um dos vários livros que publicou sobre Israel e o Médio Oriente. Pode consultar, para actualização de análises, o seu site 3. Réseau Voltaire, 19 de Setembro de 2017.

4.Réseau Voltaire, 19 de Setembro de 2017.

  1. FDS, que inclui uma minoria de árabes e onde a força dominante é o YPG (Unidades de Protecção Populares Curdas).
  2. «Estabelecimento do governo provisório do Ezidikhan», Voltairenet.org, 25 de Julho 2017.

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[Artigo tirado do sitio web portugués Abril Abril, do 16 de outubro de 2017]

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