O que podemos aprender com a crise no sindicalismo norte-americano

Reginaldo Moraes - 30 Xan 2017

Mesmo as correntes renovadoras da AFL-CIO, pós 1995, vacilam em se distanciar da política globalista e hegemonista do estado norte-americano e das corporações. Ainda são hipnotizadas pela ideologia do capital e dos políticos “globalistas” do Partido Democrata

Para contornar o déficit de representação, a partir dos anos 1990 sindicalistas dos EUA buscam ampliar as bases dos sindicatos envolvendo os não organizados e os aparentemente “não organizáveis”, os precários, os temporários, os imigrantes

 Há muitas estórias sobre o sindicalismo norte-americano. Algumas foram até popularizadas em filmes que mostram traços de gangsterismo, penetração da máfia etc. Mesmo os que conhecem apenas superficialmente aquele mundo (nisso me incluo), sabem da tradição “apolítica” dos sindicatos, do controle estrito que os “staffs” de dirigentes “técnicos” mantêm, subordinando a participação e a mobilização dos trabalhadores ao ritual das negociações fechadas com o patronato.

 De fato, por outro lado, nem tão apolítico é esse sindicalismo. Desde os anos 1930, quando a classe trabalhadora branca foi beneficiada pela legislação de Roosevelt, os sindicatos têm sido um elemento fundamental nas coligações do Partido Democrata. E desde os anos 1950, sobretudo, a central sindical (AFL-CIO) tem se alinhado fortemente com a política externa norte-americana, nos seus traços mais imperialistas.

 A atitude “negociadora” e desmobilizadora foi relativamente bem-sucedida nos chamados “vinte e cinco anos gloriosos” do pós-guerra, o período em que o capitalismo americano cresceu como nunca. As gigantescas corporações ianques vendiam muito dentro do país e também no mercado externo, não apenas por meio da exportação, mas também da implantação de uma enorme rede de subsidiárias de suas manufaturas em todo o mundo. A classe trabalhadora passou a ser integrada numa hipotética “classe média” através de um consumo sofisticado, de hábitos e valores cuidadosamente cultivados pela mídia, pela publicidade e por uma “religião da prosperidade” e do sucesso individual. Comprava casa própria, automóveis, eletrodomésticos, educação, tudo.

 Para aqueles que trabalhavam em grandes corporações, o emprego era mais do que emprego – era uma carreira ascendente, de longa duração, bons salários e benefícios indiretos (plano de saúde e de previdência, sobretudo). Farta bibliografia tem mostrado como as frágeis políticas públicas de bem-estar americanas foram sendo contornadas por uma espécie de “estado de bem-estar privado”, organizado em torno do emprego nas grandes corporações, um “welfarestate” dependente desse vínculo trabalhista. Tudo parecia indicar que, na pátria do capital, a classe trabalhadora tinha encontrado seu lugar ao sol. Tranquilo, sem sustos. Só que não.

 Já no final dos anos 1960, havia sinais de rachaduras sérias nesse edifício. E nos anos 1970 explodiram análises fortes apontando para o “declínio americano” e o eventual surgimento de uma nova potência hegemônica, o Japão. Não vamos entrar no debate sobre o declinismo – se a decadência era real e em qual medida, quais suas causas e fatores determinantes. Esse debate, ainda que relevante, nos desviaria de nosso tema imediato. O importante é registrar que, de fato, o chão se movimentava no mercado de trabalho e tinha impactos decisivos na vida da classe trabalhadora e nos seus sindicatos.

 Desde a metade dos anos 1970, começa uma fase de reformas macroeconômicas liberais (privatizações, desregulamentações) e de reengenharia das empresas. Fragmentação, outsourcing e terceirizações são acompanhadas de transplantes de fábricas para lugares com menos sindicatos e menos legislação – os estados do sul, primeiro, depois o México, a Ásia etc. E cidades industriais inteiras viraram o “cinturão da ferrugem”.

 Cresceram cada vez mais os Macjobs, empregos temporários e precários, sem direitos e sem benefícios indiretos, empregos mal remunerados nos quais se amontoam jovens, mulheres, imigrantes. E cada vez mais claramente se constrói quase uma ex-classe ou subclasse, a antiga “white working class” que um dia fora convencida de que era parte da “classe média”.

 Nesse terreno, os sindicatos “negociadores” perdem terreno. Quase não têm o que nem como negociar. E cada vez mais assistem ao desaparecimento de suas bases de representação – que escorrem entre os dedos dos dirigentes, acomodados e burocratizados. Em 1980, uns 25% dos trabalhadores eram sindicalizados, com percentual ainda maior na manufatura. Em 2010, já havia baixado para uns 12% – e na manufatura a queda era ainda maior.

 É nesse quadro que aparecem os primeiros sinais de renovação nos sindicatos e na central AFL-CIO, que, em 1995, tem, pela primeira vez, uma chapa de oposição vencendo a disputa. Os rachas e cisões se sucedem. E nas tentativas de resposta à crise econômica e ao déficit de representação, surgem algumas políticas de organização inovadoras, participacionistas. E várias delas apontam para a tentativa de ampliar as bases dos sindicatos atingindo os não organizados e os aparentemente “não organizáveis”, os precários, os temporários, os imigrantes.

 As tentativas levam à formação de um sindicalismo de novo tipo, envolvido com movimentos populares e comunitários, o “social movementunionism”. As iniciativas são empíricas, na base da tentativa e erro. Algumas perduram, outras desaparecem. E a maioria encontra um obstáculo relevante: atentam para o “organizacionismo”, a ampliação da participação, mas nem sempre se dão conta da dimensão política estratégica: a adoção de um posicionamento de classe, mais crítico com relação à ideologia patronal e às políticas do estado norte-americano.

 Mesmo as correntes renovadoras da AFL-CIO, pós 1995, vacilam em se distanciar da política globalista e hegemonista do estado norte-americano e das corporações. Ainda são hipnotizadas pela ideologia do capital e dos políticos “globalistas” do Partido Democrata.

 Um conjunto de livros recentes tenta mostrar esse tema para um público não-especialista (ou não acadêmico). Alguns procuram mostrar o que é a nova classe trabalhadora, como ela se reconfigurou. Outros especulam sobre as tais inovações nos sindicatos. E um terceiro, que já comentamos em outra nota, mostra alguns dos impactos desse terremoto socioeconômico na cabeça e no comportamento político da tal “white working class”. Segue abaixo uma lista, que pode ser localizada no formato digital da Amazon (kindle) ou em papel, na mesma livraria web.

 

Voltaremos a esse tema, comentando alguns desses livros. Até porque (e foi o que nos levou a ele), aprendemos muito com esses impasses dos camaradas do norte. Aliás, nossas lideranças e estrategistas sindicais poderiam aprender muita coisa com o social movementunionism, a organização dos não organizados e a politização das demandas para além dos limites corporativos da “categoria”. Tá faltando um pouco de classe no nosso meio.

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Alguns livros sobre o tema. Em papel e também em formato digital (Kindle):

Poor Workers’ Unions: Rebuilding Labor from Below – Vanessa Tait

Why Unions Matter – Michael D. Yates

Sleeping Giant: How the New Working Class Will Transform America – Tamara Draut

Labor Rising: The Past and Future of Working People in America -Richard Greenwald

Solidarity Divided: The Crisis in Organized Labor and a New Path toward Social Justice – Bill Fletcher Jr.

America’s Forgotten Majority: Why The White Working Class Still Matters – Ruy Teixeira

Beyond Guns and God: Understanding the Complexities of the White Working Class in America – Robert P. Jones

The New Minority: White Working Class Politics in an Age of Immigration and Inequality – Justin Gest

The Working Class Majority: America’s Best Kept Secret, – Michael Zweig

The White Working Class Today – Andrew Levison

Em papel apenas:

Organizing to Win: New Research on Union Strategies– Kate Bronfenbrenner (Editor), Sheldon Friedman (Editor), Richard W. Hurd (Editor), Rudolph A. Oswald (Editor),

Reorganizing the Rust Belt: An Inside Study of the American Labor Movement – Steven Henry Lopez

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[Artigo tirado do sitio web brasileiro Brasil Debate, do 26 de xaneiro de 2017]