Os impérios também assinam rendição

Antonio Martins - 19 Xun 2026

Por que o cessar-fogo assinado ontem põe em dúvida o poder militar dos EUA e a hegemonia do Ocidente. Como a guerra desnudou a ultradireita e seu projeto de supremacismo. O que a América Latina, agora alvo de Washington, pode aprender

 Em julho de 2025, o analista político chinês Victor Hao olhou para o projeto de Donald Trump e traçou um paralelo histórico que provocou surpresa. O esforço do presidente dos EUA para superar, por meio de um choque, o prolongado declínio de seu país poderia ricochetear de forma tão dramática — previu ele — como o de Mikhail Gorbachev para reformar o combalido sistema soviético. Trump seria, na profecia de Hao, o coveiro do império americano e da hegemonia do Ocidente. Onze meses depois, em 17 de junho de 2026, o presidente dos EUA assinou no Palácio de Versalhes, sob o olhar impávido de Emmanuel Macron, um acordo de cessar-fogo com o Irã. Negociações mais extensas, envolvendo as capacidades nucleares de Teerã e as indenizações a serem pagas por Washington, começarão em 19/6, na Suíça. Tudo ainda é provisório, frágil e sujeito a abalos (em especial, de sabotagens de Israel). Mas tornou-se impossível não lembrar de Hao, por três motivos complementares.

I.

 No plano imediato, os compromissos assumidos por Trump em Versalhes expressam o fracasso completo da aventura lançada contra o Irã pelos EUA e Israel, em 28 de fevereiro. O Irã não concedeu nada importante. O programa de mísseis que abalou a supremacia bélica de Washington e Telaviv no Oriente Médio prosseguirá, já que sequer é mencionado no compromisso. Teerã também não precisará, por enquanto, recuar sequer um passo em seu programa atômico. O objetivo de derrubar o regime iraniano, inclusive por meio do assassinato de seu líder supremo, fracassou espetacularmente. O aiatolá Ali Khamenei foi alvejado e pereceu aos 86 anos. O sistema de poder liderado por ele sobrevive, superou uma crise de impopularidade e sai da guerra fortalecido.

 O Estreito de Ormuz será reaberto — ou seja, voltará à posição de antes da guerra. Após 60 dias, o Irã poderá cobrar pela passagem de navios pelo local. Em contrapartida, os EUA encerrarão o bloqueio dos portos iranianos e — muito mais importante — o Irã poderá exportar livremente seu petróleo desde já. A crise econômica provocada pelo ataque norte-americano (e, antes dele, por anos de sanções) poderá ser vencida, com consequências políticas muito favoráveis ao regime de Teerã… 

 Adicionalmente, a depender das negociações, os ativos iranianos congelados no exterior poderão ser recuperados — e os EUA financiarão, com US$ 300 bilhões, um programa de reconstrução do país.

II.

 Por que Washington, cuja força bélica é incomparavelmente superior à de Teerã, foi obrigada a recuar tanto? A resposta mais imediata remete à configuração militar surpreendente do conflito e a seu desdobramento econômico. Desenvolvimentos tecnológicos recentes, aponta Paul Krugman, reduziram de modo dramático a vantagem do imenso arsenal de guerra dos EUA. As consequências, potencialmente transformadoras, requerem análise mais profunda. Sabe-se que drones Shahed de 20 mil dólares, que o Irã consegue produzir em grandes quantidades, equiparam-se agora a mísseis Patriot de US$ 1 milhão.

 O regime iraniano serviu-se deles para alcançar dois objetivos estratégicos, que estabeleceu com enorme sagacidade. Primeiro, anular a ideia de que as defesas de Israel e das monarquias do Golfo Pérsico aliadas a Washington eram inexpugnáveis. Segundo — e muito mais importante — fechar o Estreito de Ormuz e provocar uma crise de abastecimento de combustíveis e fertilizantes que ameaçou abalar as economias ocidentais e devastou a popularidade de Trump nos EUA.

 Uma série de matérias da revista Economist mostrou, nas últimas semanas, que as reservas estratégicas de petróleo dos EUA e seus aliados estavam próximas de se esgotar. Ao falar em Versalhes, Trump reconheceu que o prolongamento da guerra — e em especial do bloqueio da passagem crucial — produziria em poucos dias uma crise de desabastecimento, que poderia contaminar mercados financeiros. É evidente que Teerã aproveitou-se disso para tensionar ao máximo as negociações e alcançar vantagens que em outros cenários seriam inconcebíveis.

III.

 Mas as mutações políticas — e as lições teóricas que é possível tirar delas — são ainda mais profundas. A derrota de Trump revela os limites de uma das ideias centrais à onda de ultradireita que percorre as Américas e a Europa. Está em xeque o supremacismo, expresso na fórmula Make America Great Again (MAGA); na destruição, por Trump, da ordem internacional que os EUA ergueram após a II Guerra Mundial; na crença de que o Ocidente poderia restaurar sua supremacia trocando a construção de consensos pela aplicação da força bruta.

 O impasse que resulta pode ter grande relevância política e abrir avenidas para a ação — porque o avanço da ultradireita tem causas claras. A desigualdade cresceu de forma incontrolável nas décadas do neoliberalismo e segue avançando, como mostram as fortunas agora trilionárias das big techs e seus barões. Incapazes de frear este movimento, as formas atuais de democracia passaram a ser desacreditadas pelas maiorias. Emergiu entre estas a crença no individualismo, no salve-se quem puder e nos “homens fortes”. Que possibilidades serão abertas caso ela fracasse? A esquerda saberá finalmente aproveitá-las?

IV.

 O fracasso de Trump no Oriente Médio terá consequências especiais para a América Latina. Na nova Doutrina de Segurança Nacional dos EUA (a chamada “Doutrina Donroe”), a região é vista pela potência decadente como seu território de caça — o espaço do mundo cujas riquezas naturais e relações socioeconômicas pode rapinar à sua vontade. É provável que, humilhada, a Casa Branca volte-se com ainda mais voracidade para onde se sente segura. Seu peso não é desprezível, como mostram as vitórias eleitorais da direita e da ultradireita pró-EUA na maior parte dos países do continente.

 Junto com a Europa, a América Latina é uma das partes do mundo onde o futuro parece mais sombrio. As esperanças do “desenvolvimento” foram sufocadas há 40 anos. A condição periférica é reforçada pelo surgimento e avanço de novas tecnologias, em que a região é subalterna. O horizonte político estreita-se. Boa parte dos movimentos sociais e dos ativistas parece limitar suas ambições — e seu desejo político — à torcida para que a ultradireita não seja capaz de formar maioria nas eleições seguintes.

 No Irã, Trump e seu “novo” projeto de dominação eurocêntrica acabam de sofrer uma derrota histórica. Em que medida ela poderá estimular a esquerda e os movimentos da região a recompor seus projetos, suas articulações, suas lutas? A questão pede respostas.

 

[Artigo tirado do sitio web Outras Palavras, do 18 de xuño de 2026]