Palestina: enquanto a UE assobia para o lado...

João Oliveira - 16 Feb 2026

Enquanto a UE assobia para o lado, a sua hipocrisia e dualidade de critérios tornam-se politicamente demolidoras. Elas arrasam a credibilidade das proclamações sobre direitos humanos e respeito pelo direito internacional com que os responsáveis da UE enchem os seus discursos

 Enquanto a agressão e a política genocida do governo israelita impõem ao povo palestiniano um drama de proporções inimagináveis, a União Europeia (UE) faz uma opção cúmplice de silêncio e inacção, assobiando para o lado como se nada se passasse.

 As acções e decisões do governo israelita nos últimos meses tornam estas opções e posições políticas de cumplicidade da UE ainda mais evidentes e cada vez mais insustentáveis (no sentido de serem cada vez mais difíceis de sustentar para quem as toma ou defende).

 Já estava à vista do mundo inteiro que não houve nem há nenhum cessar-fogo em Gaza. Israel continuou a bombardear populações civis na Faixa de Gaza, gerindo o calendário da agressão militar em função da sua conveniência e do desvio das atenções mediáticas internacionais para outros pontos do globo, designadamente em função de desenvolvimentos impostos pela ofensiva agressiva dos EUA.

 Israel tinha também já declarado que “irá impor” a interdição das actividades operacionais de 37 Organizações Não Governamentais (ONG) que operam na Faixa de Gaza, forçando estas a cessar as suas actividades até 1 de Março.

 As Nações Unidas sublinharam que, a concretizar-se, esta intenção de Israel irá agravar a já dramática situação humanitária no território de Gaza e clamaram pelo cumprimento por Israel das obrigações que resultam do direito internacional neste âmbito.

 Ignorando tais apelos, Israel anunciou a 1 de Fevereiro a interdição das operações da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Faixa de Gaza.

 Além disso, depois de ter interditado a actuação da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA) em Jerusalém Oriental, o governo israelita avançou recentemente com a destruição das suas instalações e o corte do fornecimento de água e energia elétrica.

 Da UE continua a não se ouvir uma palavra de condenação, de exigência de respeito pelo direito internacional, pelos direitos humanos e pelos direitos nacionais do povo palestiniano. Nem um “zumbido” a propósito da possibilidade de suspensão do Acordo de Associação UE/Israel. Nada.

 O Parlamento Europeu, tão célere a clamar contra a pretensa violação de direitos humanos quando estão em causa situações de conveniência da UE por razões geoestratégicas, recusa sequer debater o drama que se vive na Palestina. Naturalmente, é pelas mesmas razões geoestratégicas que impõe esse silêncio enquanto o povo palestiniano é massacrado às mãos de Israel.

 Enquanto a UE assobia para o lado, a sua hipocrisia e dualidade de critérios tornam-se politicamente demolidoras. Elas arrasam a credibilidade das proclamações sobre direitos humanos e respeito pelo direito internacional com que os responsáveis da UE enchem os seus discursos.

 O pior é que não é só a credibilidade política dessas afirmações que se esvai. São também as vidas dos homens, mulheres e crianças palestinianas sacrificadas e os direitos de todo um povo desprezados a cada dia que passa que ficarão a pesar na responsabilidade de quem, pelo silêncio, se torna cúmplice.

 

[Artigo tirado do sitio web portugués Odiário.info, do 12 de febreiro de 2026]