Partido de Wall Street: as semelhanças entre Trump e Hillary

Daniel Angelim -

Há muitas coisas em jogo na próxima disputa eleitoral dos EUA. Infelizmente, entre elas não estão as diretrizes da economia e do mercado acionário. No final, a ortodoxia prevalecerá e todo o sistema politico continuará subordinado aos interesses de um pequeno grupo de pessoas

 Os dois maiores partidos estadunidenses, o Republicano e o Democrata, têm se revezado no governo dos Estados Unidos desde meados do século XIX. Ambos têm diferenças importantes, principalmente no que diz respeito ao papel do Estado, à extensão dos direitos civis e outros temas sociais. A grosso modo, os democratas são mais liberais do ponto de vista dos valores, enquanto os republicanos/as são mais conservadores. Por óbvio, ainda mais no contexto de uma disputa entre Donald Trump e Hillary Clinton, o tema não é um mero detalhe.

 Trump, entre outras tolices, afirma que construirá um muro na fronteira com o México, obrigando o país vizinho a pagar pela obra com ameaças de sanções, cobranças de dívidas e cortes de acordos comerciais. Outro exemplo é o tratamento aos refugiados. Trump acredita que os EUA não devem receber ninguém que venha de países com maioria muçulmana. Ele propôs, inclusive, uma proibição da entrada de qualquer muçulmano no país até que “se descubra o que está acontecendo”. Sobram declarações misóginas, racistas, homofóbicas e incitações à violência e ao ódio, além de outros impropérios. Nesse contexto, as tradicionais querelas táticas se agigantam.

 Convém marcar que tais definições são apresentadas aqui de forma genérica e que existe um grande número de matizes possíveis na política. Não existe uma unidade monolítica sequer no interior de um mesmo partido político, e as definições de liberal e conservador não correspondem aos conceitos de esquerda e direita.

Economia, o consenso

 As distinções apresentadas, maiores e menores, praticamente inexistem quando tratamos dos temas econômicos. Mesmo que haja alguma controvérsia sobre o papel indutor do Estado e do peso da carga tributária, as propostas de democratas e republicanos respeitam os ditames do Partido de Wall Street, como costuma dizer o geógrafo britânico David Harvey.

 Esse grupo econômico político controla de forma absoluta a política econômica dos EUA há pelo menos 40 anos. Corrompeu e corrompe legal e ilegalmente o Parlamento e o Executivo por meio de dinheiro e da pressão exercida pela grande mídia corporativa. Wall Street subjuga boa parte do aparato estatal e do Judiciário, em especial a Suprema Corte, cujas decisões estão crescentemente a favor dos interesses venais do dinheiro, em esferas tão diversas quanto a eleitoral, trabalhista, ambiental e comercial. Lá está o 1%.

Mais do mesmo

 Para as eleições de 2016 não se espera algo diferente. Mesmo que Trump e Clinton, de olho nas pesquisas, façam declarações contra os banqueiros, as gordas doações para as campanhas apontam em outro sentido.

 "Estou financiando minha própria campanha". Essa frase já foi repetida em inúmeras ocasiões por Trump para fundamentar o argumento que assim ele estaria livre de grandes doadores, interesses especiais ou lobbies. No entanto, mais tarde, revelou-se que o autofinanciamento é na verdade um empréstimo – cerca de 50 milhões de dólares – feito à sua própria campanha. Os milhões serão restituídos aos bolsos do bilionário com as atuais e futuras doações.

 Doações que virão principalmente – como já é a tradição – dos magnatas de Wall Street. Não é casual que Steven Mnuchin, que trabalhou durante 17 anos no banco de investimentos Goldman Sachs, tenha sido recentemente contratado como fundraising campaign leader da chapa Trump-Pence. A estratégia parece estar funcionando. Em julho, Trump já era o líder em doações entre os banqueiros de Wall Street, arrecadando mais de 70 milhões de dólares em um mês.

Os Clinton e Wall Street: 24 anos de enriquecimento

 Desde o final dos anos 1980, Bill e Hilary Clinton sustentam uma relação estreita com Wall Street, de imenso benefício financeiro para ambas as partes. O casal recebeu, até o começo da corrida eleitoral de 2016, cerca de 70 milhões de dólares dos bancos de Nova York em contribuições de campanha, além de outros 9 milhões em honorários de palestras. Em contrapartida, as instituições financeiras lucraram bilhões de dólares em práticas que anteriormente eram proibidas, mas que a administração Bill Clinton conseguiu legalizar.

 Durante a crise econômica iniciada em 2008, provocada centralmente pela atuação dos gigantescos grupos econômicos estadunidenses, o governo de George W. Bush, apresentou a controversa lei de Estabilização Econômica de Emergência (Troubled Asset Relief Program). A senadora Hillary Clinton deu seu voto favorável ao projeto de lei, declarando na manhã seguinte que “os bancos de Nova York provavelmente são os maiores vencedores nesta situação”.

 Durante todos esses anos, os Clinton se beneficiaram imensamente das contribuições políticas de Wall Street: 11,17 milhões de dólares para a campanha de Bill de 1992; 28,37 milhões para a sua reeleição em 1996; 2,13 milhões para o financiamento de Hillary; 6,02 milhões para sua reeleição em 2006 e 14,61 milhões de dólares para a sua primeira campanha presidencial, segundo o site americano Bloomberg.

 Há muitas coisas em jogo na próxima disputa eleitoral dos EUA. Infelizmente, entre elas não estão as diretrizes da economia e do mercado acionário. No final, a ortodoxia prevalecerá e todo o sistema politico continuará subordinado aos interesses de um pequeno grupo de pessoas.

 No entanto, todo o processo de mobilização originado pelo Ocuppy Wall Street e potencializado pela campanha do senador Bernie Sanders enseja uma reflexão acerca de um desejo de mudança radical dentro da maior e mais relevante economia do mundo.

 Deste lado parecem estar os outros 99%.

 

[Artigo tirado do sitio web brasileiro ‘Carta Capital’, do 1 de setembro de 2016]

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