Reflexões sobre a Terceira Intifada Palestiniana

Salwa Ibrahim -

Esta terceira intifada está a criar um precedente que Israel terá dificuldade em combater: está a estilhaçar mais de sete décadas de fragmentação territorial... Pela primeira vez desde 1948, toda a Palestina histórica está a renascer, ao mesmo tempo, politicamente e para si mesma

“A Palestina é uma espinha cravada na garganta do mundo. Ninguém a conseguirá engolir.” Elias Sanbar[1]

  1. A terceira intifada é anti-sionista

 Parece necessário clarificar certas análises que atribuem a responsabilidade pela sublevação palestiniana às políticas da extrema-direita israelita. Digamo-lo claramente: a extrema-direita israelita não é o problema. O sionismo é. É o sionismo, este colonialismo destinado a expulsar e substituir os palestinianos, que está na origem desta terceira intifada.

 Que tudo tenha começado com Sheikh Jarrah não é um acidente. Sheikh Jarrah é um espelho reduzido da longa Nakba palestiniana. Sheikh Jarrah é outro Lifta, outro Deir Yassin, outra Haifa, o eco distante das cidades e aldeias colonizadas e desarabizadas desde 1948. "Os velhos morrerão e os jovens esquecerão"[2], pensava Ben Gourion. Uma aposta louca e perdida. Pois mesmo que a amnésia fosse uma opção, os repetidos Sheikh Jarrah tornam-na absolutamente impossível.

 O facto de o Estado sionista ser chefiado por um governo da extrema-direita, do centro-direita ou da esquerda é um elemento que deve ser levado a sério e analisado, mas sem perder de vista o que está na origem do conflito: a empresa colonial que é o sionismo. Caso contrário, a análise equivaleria a uma leitura errada da situação atual na Palestina ocupada.

 Consistiria em aplicar a grelha de leitura válida em estados "normais", aqueles em que o conflito político é estruturado em torno da clivagem entre a direita e a esquerda, o progressismo e o conservadorismo (e o fascismo). Esta grelha de leitura é inválida em Israel/Palestina e tem a infeliz função de branquear implicitamente o Estado israelita enquanto tal: os seus fundamentos ideológicos, a sua história miliciana e militar, a sua política colonial prosseguida sistematicamente, desde a sua criação e o seu papel reacionário no Oriente Árabe.

 Que o Estado colonial, construído para raptar a Palestina e expulsar as populações autóctones, se adorne de uma identidade socialista ou fascista, não faz diferença para aqueles que veem as suas terras e as suas casas expropriadas. Entremos, então, nessa dona do momento, a História, para recordar que Yitzhak Rabin, esse herói da esquerda sionista, não teve necessidade de ser de extrema-direita para co-liderar a primeira guerra de limpeza étnica na Palestina, entre 1947 e 1949, especialmente na região a norte de Jerusalém e nas cidades de Lydda e Ramleh[3]. Do mesmo modo, os colonatos que se apresentaram como kibutzes e que fascinaram tantos socialistas na Europa, são no entanto colónias do ponto de vista dos despossuídos.

 Quanto à tradição sionista de esquerda, cheia de humanismo, a sua principal preocupação tem sido "salvar" Israel. Salvar o que é dado por garantido, os territórios conquistados pela força, em 1948, e esperar que o Estado militar que privou a Palestina da maior parte da sua linha costeira (e portanto dos seus portos) se digne permitir a existência de um enclave palestiniano ao seu lado. A este respeito, o sionismo de esquerda é tão oposto à luta de libertação nacional palestiniana e aos direitos políticos dos palestinianos como o sionismo de direita. A única diferença é que aspira à paz (através da negação da justiça, lembre-se) a fim de "salvar" Israel.

 Envolver o sionismo numa auréola "socialista" e no epíteto "esquerda" é, portanto, bastante pernicioso. São o equivalente ao chapéu de coco e ao guarda-chuva de Orwell para o fascismo[4]. Ver a intifada palestiniana como uma reação à extrema-direita e não ao sionismo é o resultado de uma habituação lenta de fazer do Estado israelita um Estado "normal", uma ilusão que é tempo de desfazer.

 Portanto, camaradas, não lamentemos a exposição do sionismo. Netanyahu, o governo de extrema-direita e os colonos fascistas são a face odiosa do sionismo, mas a face que é descoberta, sem máscara, nem disfarce.

  1. A terceira intifada é nacional

 Certamente, o sionismo liderado por um governo israelita de extrema-direita é mais rude, mais racista, mais brutal. E, portanto, mais insuportável. É legítimo pensar que contribuiu para acelerar as condições que permitiram a atual intifada, o que é inevitável na medida em que a opressão gera inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, uma resistência aberta. Pois, e perdoem-nos por repetir isto, o coração do conflito é o projeto de colonização-substituição na Palestina. É por isso que a luta que impulsiona os palestinianos é uma luta pela libertação nacional. Uma luta contra um colonialismo cujas várias maiorias políticas nunca mudaram o que ele é: um colonialismo.

 Para estar convencido disto, basta ouvir as manifestações que têm lugar nos territórios do interior, em Israel, ou na Cisjordânia: em lado nenhum ouvimos pedidos de reforma do Estado israelita, de mudança de regime para algo mais progressista, de direitos esperados que o Estado israelita concederia aos palestinianos.

 O slogan repetido em todo o lado não é "o povo quer a queda do regime", mas "o povo quer a libertação da Palestina" ("El shaab yourid tahrir Falestine"). A raiva é dirigida contra Israel. Contra Israel desde 1948, contra Israel na sua essência, ou seja, contra o sionismo. O que reúne os palestinianos de Haifa a Belém e de Gaza a Jerusalém é a ideia de libertação nacional, e sejamos precisos: sobre toda a Palestina.

 Esta terceira intifada está a criar um precedente que Israel terá dificuldade em combater: está a estilhaçar mais de sete décadas de fragmentação territorial. Jerusalém, Gaza, Haifa, Jenin, Ramallah, Al Khalil, Yaffa, Ramleh, Nablus… Pela primeira vez desde 1948, toda a Palestina histórica está a renascer, ao mesmo tempo, politicamente e para si mesma. Isto constitui, portanto, um repúdio irrevogável da "Autoridade" palestiniana, cuja principal função era a de policiar os palestinianos da Cisjordânia, nomeadamente através da colaboração com as forças de ocupação israelitas.

 A ironia da história é que esta terceira intifada tem lugar precisamente no momento em que as eleições legislativas estavam previstas, que Mahmoud Abbas adiou sine die, sob o pretexto de que os palestinianos de Jerusalém foram impedidos de votar, mas na realidade sob pressão de Israel e das divisões no seio da Fatah. Assim, Jerusalém votou, e com ela, toda a Palestina se seguiu. A luta pela libertação nacional está a retomar o curso da sua história.

  1. Um novo tipo de intifada

 A cada conjuntura, a sua estratégia revolucionária adequada. Esta terceira intifada não é, nem a intifada das pedras contra tanques, nem a resistência de Gaza contra o exército israelita, nem o confronto direto com os colonos israelitas, nem as marchas do regresso nos países vizinhos. São todas estas coisas ao mesmo tempo. E está a tomar a iniciativa. A decisão da resistência palestiniana em Gaza de responder à agressão israelita em Jerusalém é inesperada e sem precedentes. Elimina meticulosamente as lógicas territoriais particularistas postas em prática por Israel e restabelece o princípio nacional.

 O que acontece em Jerusalém tem consequências em Gaza, as revoltas na Palestina 48[5] (Israel) acompanham as da Cisjordânia. Acima de tudo, os refugiados na fronteira não são deixados de fora. No momento em que escrevemos, centenas de palestinianos e vizinhos árabes da Jordânia e do Líbano acabam de atravessar – pela primeira vez em três gerações – a fronteira com a Palestina ocupada, revogando as dolorosas descontinuidades geográficas do Bilad As-Sham (os Países de Damasco) resultantes da divisão colonial. Para alguns, o sonho de uma vida, quase irreal, tornou-se realidade: pisar a terra da Palestina, regressar.

 Quanto à resistência, é multiforme, híbrida. Todos os meios possíveis são mobilizados simultaneamente e numa relação de dependência mútua. Não há contradição entre resistência armada e resistência pacífica, elas são complementares. O primeiro passo é impor a Israel um novo equilíbrio de poder, uma nova situação, que acabaria por dissuadi-lo de prosseguir a sua limpeza étnica em total liberdade, sem preocupações. Um dos maiores desafios é então reconstruir uma estrutura unificada do movimento nacional, empenhado em organizar e reforçar a unidade desta terceira intifada. A tarefa é imensa.

  1. Solidariedade plena e incondicional

 O que aparece ao mundo de hoje, setenta e três anos após o início da Nakba, é o fracasso de Israel em engolir a Palestina, em fazê-la afundar no abismo do esquecimento. Como em todo recalcamento, a Palestina nunca deixou de se manifestar, de ser um sintoma. E agora está a recompor-se, a restabelecer-se, a reafirmar-se na e através da luta coletiva e nacional.

 Não há dúvida de que a repressão por vir será de uma brutalidade insuspeitada. Já o é. O exército israelita está a intensificar o seu bombardeamento de Gaza, ameaçando uma incursão terrestre e vindo em auxílio da polícia em Israel. Sabemos como as guerras anticoloniais podem ser violentas, é uma das lições do século passado. Sabemos também que a libertação é possível: há povos que ganharam.

 É por isso que a solidariedade incondicional com a resistência palestiniana pelos seus direitos nacionais e democráticos é mais necessária do que nunca. A luta anti-colonial palestiniana é a luta de todos os progressistas, de todos os anti-colonialistas, em todos os cantos do mundo. Sejamos os seus companheiros de caminho.

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Notas:

[1] SANBAR Elias, "Le bien des absents", Actes Sud, Paris, 2001, p. 61.

[2] Citado por Michael Bar Zohar, «Ben-Gurion: the Armed Prophet», Prentice-Hall, 1967, p. 157.

[3] PAPPE Ilan, "Le nettoyage ethnique de la Palestine", 1947-1949, Fayard, Paris, 2006, p. 25.

[4] “Quando os fascistas voltarem, terão o guarda-chuva enrolado debaixo do braço e o chapéu de coco", Georges Orwell, 1984.

[5] Termo que designa os territórios da Palestina conquistados por Israel em 1948.

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[Artigo tirado do sitio web portugués Esquerda, do 31 de maio de 2021]

 

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