Síria e a resolução 2254 das Nações Unidas

Pedro Guerreiro -

A solução para a grave situação na Síria exige o efectivo respeito da soberania, da independência, da unidade e da integridade territorial da República Árabe Síria e não a ingerência e a intervenção externa com vista à imposição de uma dita «mudança de regime»

 A resolução 2254, sobre a situação na Síria, adoptada unanimemente pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas no passado dia 18 de Dezembro, com as suas contradições e ambiguidades e sendo um autêntico exercício de hipocrisia e cinismo para aqueles que – como os Estados Unidos, a França ou o Reino Unido – desde há cinco anos se lançaram na destruição da República Árabe Síria, não deixa de reflectir a recente evolução da situação neste país, que resulta fundamentalmente da determinante e obstinada resistência da Síria e do seu povo à brutal agressão externa e do importante apoio que a sua luta tem recebido.

 Se a resolução começa por reafirmar o forte compromisso para com a soberania, independência, unidade e integridade territorial da República Árabe Síria, e com os propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas, ela contém igualmente os elementos que serão utilizados para continuar a colocar em causa tais «compromissos», designadamente, por parte daqueles que até aqui nunca os respeitaram.

 Isto é, impossibilitada que foi a consumação da destruição do Estado sírio, nomeadamente das suas instituições, depois de cinco anos de ingerência e de agressão por parte dos Estados Unidos e seus aliados da NATO e no Médio Oriente – que criaram e apoiaram todo o género de grupos mercenários que espalharam a morte e a devastação –, pretenderão alguns consumar agora e por esta via a dita «mudança de regime» na Síria, que, até aqui, não conseguiram impor pela guerra.

 Se dúvidas existissem quanto às suas reais intenções, bastaria acompanhar as declarações dos representantes dos Estados Unidos, da França ou do Reino Unido, entre outras, no momento da adopção desta resolução no Conselho de Segurança. Com nuances, as suas declarações confluem na reafirmação do objectivo que continuam a considerar primordial, isto é, o afastamento do presidente da Síria, Bashar al-Assad, com base numa «transição política» por si calendarizada e com a inclusão/exclusão de quem por si fosse determinado. Se agora já anunciam a exclusão do denominado «Estado Islâmico», por outro lado, sublinham a inclusão de grupos similares que participaram numa reunião recentemente realizada na Arábia Saudita – um dos países que sempre apoiou o dito «Estado Islâmico».

 Não deixa de ser igualmente significativo e clarificador que são aqueles que mais desrespeitaram a soberania e independência do Estado sírio e que são responsáveis pela brutal destruição deste país que, de novo, se posicionam na primeira linha (da continuação) da ingerência, impondo condições, determinando objectivos, acenando com ameaças, estabelecendo mecanismos que permitam a sua acção directa no terreno – no fundo, continuando a pretender decidir o que só ao povo sírio compete e cabe decidir.

 A solução para a grave situação na Síria exige o efectivo respeito da soberania, da independência, da unidade e da integridade territorial da República Árabe Síria e não a ingerência e a intervenção externa com vista à imposição de uma dita «mudança de regime» – autêntica acção criminosa que os Estados Unidos com os seus aliados perpetraram, por exemplo, na Jugoslávia, no Iraque ou na Líbia, desprezando os princípios da Carta das Nações Unidas.

 O imperialismo não vai desistir facilmente de concretizar o seu intento de destruir a República Árabe Síria e o seu posicionamento pan-árabe e anti-imperialista. Como antes, cabe às forças patrióticas e progressistas da Síria, cabe ao seu povo defender o seu Estado independente e soberano – com o apoio de outros Estados e a solidariedade das forças da paz e anti-imperialistas do mundo.

 

[Artigo tirado do sitio web ‘Avante’, núm. 2.196, do 30 de decembro de 2015]

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