Três ilhas para falar de economia
A realidade geopolítica do imperialismo exige um alinhamento robusto entre o sonho do socialismo, compartilhado por todos os povos oprimidos e expresso de formas multifacetadas, e a dura luta militar concreta pela soberania nacional em condições que, por definição, não são ideais
1.
Falar de economia é educar politicamente. Mesmo que a decadência e barbárie do capitalismo na era pós-neoliberal seja explícita e os economistas comprados pelo Norte global ainda continuem cegos para a urgente necessidade de uma alternativa, o campo da ciência econômica, ou melhor, economia política, já reconhece que o mundo mudou.
A educação política em economia requer a articulação de duas esferas contraditórias: a do ideal e a do real. A vontade de fazer uma economia diferente, verdadeiramente humana e alinhada ao sonho comum de paz, prosperidade e cuidado ambiental, precisa enfrentar desafios objetivos da geopolítica concreta. Essa questão aparece de forma particularmente clara no debate sobre o socialismo, sobretudo na relação entre o chamado socialismo utópico e o socialismo científico, que talvez tenha ficado mal resolvida no século passado.
Existem duas obras literárias que foram muito influentes na configuração da economia política moderna e que permitem explorar esse tópico de modo bastante didático: Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, publicado no Reino Unido em 1719 e Utopia, de Thomas More, publicado no continente europeu na primeira metade do século XVI.
Ambas apresentam narrativas em torno de um elemento central: a ilha. Um pedaço de terra cercado por água isolado do mundo “normal”. Esse isolamento é crítico para a descrição de como um sistema econômico em geral se configura.
A ilha funciona como um recurso metodológico que permite observar os fundamentos de qualquer tipo de sistema econômico: desde um baseado numa massiva civilização avançada tecnologicamente até um baseado num único náufrago equipado apenas com as ferramentas salvas de sua embarcação destroçada. Ao separar um território imaginário do mundo existente, torna-se possível experimentar, em pensamento, diferentes formas de organizar a produção, a distribuição e a vida social.
Em Utopia, trata-se de um reino distante fundado por um tal Utopos, que no passado teria liderado um megaprojeto de escavação. A península que ligava a comunidade ao restante do continente teria assim sido cortada e transformada numa ilha, cujo acesso é difícil porque apenas os nativos saberiam atracar com segurança no entorno rochoso.
O mais impressionante no relato ficcional, em contraste com o emergente sistema mercantil do século XVI que vai seguindo o ímpeto do dinheiro e do capital de modo instintivo e que está sob crítica aberta na obra de Thomas More, é que “Nenhum lugar” (do grego Ou = não, topos = lugar) é um país organizado segundo princípios racionais, onde o uso do território é cuidadosamente planejado.
Por exemplo, quando uma cidade cresce além de certo limite, parte de sua população é enviada para fundar outro assentamento em algum ponto da ilha que ainda não seja habitado, garantindo assim um certo equilíbrio no processo de metabolismo social com a natureza. Todas as cidades são idênticas em tamanho e possuem a mesma distância entre si, reforçando a homogeneidade do desenvolvimento de toda a nação. A economia aparece aqui como objeto de desenho consciente, em escala social, revelando o potencial da imaginação para propor formas alternativas de organização.
2.
Já em Robinson Crusoé, em contraste, a ilha não é a morada de uma sociedade propriamente dita, mas de apenas um único indivíduo. Isolado, o náufrago precisa criar, sozinho, as condições materiais de sua existência. Precisa achar água, comer e se proteger do sol e da chuva. Ao se lançar ao trabalho para sobreviver, desenvolve técnicas e domestica a natureza, transforma seu entorno em uma unidade produtiva que é, ao mesmo tempo, casa, fazenda e fortaleza.
Produz e utiliza o produto com perspicácia ao longo de muitos anos, chegando ao ponto de construir um forno para fazer pão e começar a projetar a produção de cerveja. No fim se percebe que o náufrago está reproduzindo na ilha o padrão de comportamento do Homo economicus, essa figura-expressão do humano dominado pela racionalidade contábil do capital: mais, mais, mais…
De toda forma, é interessante notar que, do mesmo modo como no caso da ilha de Utopia, o dinheiro tem uma função vazia no sistema econômico. Lá, os metais preciosos eram utilizados para a confecção de objetos estritamente funcionais, como penicos, e eram assim solenemente desprezados como materiais de valor. Na ensolarada ilha de Robinson Crusoé, o baú repleto de moedas de ouro resgatado por ele da embarcação também é só um peso morto. Na ausência do mercado, ele vale menos do que uma corda velha, mas ainda robusta.
Essas duas ilhas revelam perspectivas distintas, mas complementares. Tanto o coletivismo de Utopia como o individualismo do “contador burguês” partem de um mesmo gesto: imaginar sistemas econômicos fora das determinações imediatas da sociedade existente. São construtos mentais descrevendo o funcionamento de sistemas econômicos.
É esse gesto que Karl Marx submete a uma crítica cuidadosa e complexa ao incorporar a economia política inglesa aos pilares da política socialista francesa e da filosofia materialista alemã. A partir de seu significativo e enxuto texto Prefácio à Crítica da Economia Política, ele argumentou que os sistemas econômicos não podem ser concebidos como simples construções da imaginação.
Isto porque são resultado de um processo histórico real, condicionado pelo desenvolvimento das forças produtivas e pelas relações sociais de produção efetivamente em vigência ao longo da história. A economia, portanto, não é passível de ser arquitetada de modo completamente livre, mas precisa ser construída em cima das condições objetivas materialmente dadas.
3.
A crítica ao assim chamado socialismo utópico inaugurado por Karl Marx e Friedrich Engels não elimina a imaginação, mas redefine seu papel. Não basta conceber uma organização econômica ideal: é necessário que existam condições históricas que a tornem possível. A passagem do utópico ao científico consiste precisamente em incorporar a análise dessas condições.
Nesse sentido, o capitalismo desempenha um papel ambíguo: ao mesmo tempo em que produz desigualdades, ele impulsiona o desenvolvimento tecnológico e amplia as possibilidades materiais de transformação econômica. É nesse terreno que se coloca a questão do socialismo como possibilidade histórica, e não apenas como construção imaginária.
Deixando o plano da ficção, há uma terceira ilha, sobre a qual é incontornável falar na conjuntura atual. Cuba é uma experiência real de construção do socialismo que enfrenta desde os estágios iniciais de sua revolução em 1959 condições objetivas adversas. Ainda que a URSS tenha sido, enquanto existiu, um importante ponto de apoio, a situação legada pelo colonialismo e o esforço sistemático dos Estados Unidos em sabotar e assassinar as lideranças são elementos que mostram como o processo revolucionário não pode ser pautado pelo idealismo.
As restrições externas como o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e condenado pela comunidade global na ONU há décadas limita o acesso a mercados, tecnologias e fluxos financeiros, afetando diretamente o desenvolvimento econômico do país.
Por isso, a realidade geopolítica do imperialismo exige um alinhamento robusto entre o sonho do socialismo, compartilhado por todos os povos oprimidos e expresso de formas multifacetadas, e a dura luta militar concreta pela soberania nacional em condições que, por definição, não são ideais.
O acirramento do bloqueio econômico e as desesperadas ações do imperialismo nos últimos anos impele todas as forças progressistas a encontrarem unidade na defesa de todos os povos que lutam contra o imperialismo, do mar caribenho ao rio Jordão.
O socialismo científico não abandona a utopia, mas a reinsere na história: transforma a imaginação em hipótese, e a hipótese em problema concreto. Entre ilhas imaginárias e o globo terrestre real, é nesse espaço de tensão e aliança entre a ciência e a esperança que a economia política marxista continuará avançando no século XXI.
[Artigo tirado do sitio web aterraéredonda, do 14 de abril de 2026]